Jejuando no monte

Por Vanessa Henriques

As eleições sempre têm o poder de nos apresentar figuras, digamos, peculiares. A bola da vez tinha tudo para ser o enlouquecido Cabo Daciolo, com 1% nas pesquisas de intenção de voto mas “100% com Deus”. O ex-bombeiro militar só não bombou mais porque está, há dias, jejuando no Monte das Oliveiras, em Campo Grande (RJ), pela sua campanha, pela saúde de Bolsonaro e contra o domínio dos Illuminati e dos comunistas.

Nessa, o cabo saiu de cena, e nos poupou de alguns constrangimentos e gargalhadas. (Fica aí a dica para vários candidatos) E já que estamos todos fora do normal, já engato uma frase que nunca pensei que escreveria: eu concordo com o Cabo Daciolo.

Não que eu acredite em Plano Cohen ou coisa parecida, mas eu também ando querendo me desligar de tudo. Passei as últimas semanas lendo e discutindo eleições com amigos e colegas, e cheguei à conclusão de que, além do voto, não há nada mais que eu possa fazer. Não importa quantos links de textos maravilhosos eu leia ou compartilhe, quantas piadinhas com o nome do coiso eu faça ou quantos debates eu assista.

A minha saúde mental vale (ou deveria valer) mais do que isso. Entrei neste liquidificador da notícia em tempo real, das pesquisas semanais e dos memes diários, e o resultado não foi lá muito tragável. Os dias estão cinzas: por causa das chuvas da primavera, que já vem vindo, e por causa das conversas, que vão sempre por caminhos desagradáveis.

Eu queria ter uma palavra de esperança, uma ponta de alegria, mas tudo está convergindo para este buraco negro. Os planos estão paralisados, há meses, à espera de uma definição. Eu queria dizer que vi uma flor furar o asfalto, mas eu não vi. Como disse uma sábia amiga: a situação está tão complicada que não dá nem para correr para as montanhas, porque corre-se o sério risco de encontrar o Cabo Daciolo por lá!!

Subir o monte e buscar um pouco de paz, de silêncio, não é pecado. Mas não quero que pareça alienado da minha parte querer abandonar o barco quando a água já tá entrando pelo casco e o capitão é, veja bem, meio fascista. Só queria dizer que estou atingindo um tipo de limite. O limite de discussão e de sofrência, no melhor estilo sertanejo da palavra.

O problema é que o nosso votinho, tão único, parece pequeno demais diante dos grandes-destinos-do-país-e-da-humanidade. Ele não é, mas a avalanche de notícias e conjecturas nos dá essa impressão. Jornal deveria vir com alerta do Ministério da Saúde: a leitura diária pode provocar paranoia, desesperança e solidão. Em caso de suspeitas, pare de ler.

O nosso futuro nunca está somente nas nossas mãos. Depende de milhões de fatores e de um contexto que muda a todo instante. Só que se eu vou mudando junto, o que sobra de mim? Se não acredito em salvadores, preciso começar a construir meu bote salva-vidas. Ele pode ter o formato de jejum no monte, de viagem, de soneca pós-almoço, de ida ao supermercado sem celular, de boiar no mar ou de jogar paciência no computador. Portanto que flutue.

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One thought on “Jejuando no monte

  1. É difícil se desligar, por que é cada absurdo…depois de 21 dias de retiro, ontem o Cabo Daciolo disse que vai ganhar as eleições no primeiro turno…ele deixou de comer um pudim, um bolo de chocolate, uma bela feijoada para chegar a esta conclusão kkkk

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