Pinta com o meu paint

Por Vanessa Henriques

Pude ver o brilho nos olhos do estagiário esmorecer diante da constatação: ele teria que usar o Paint, esse programa tão útil quanto inofensivo, para fazer seu trabalho. Mas já existem programas mais modernos, ele clamava. Eu não pude compartilhar de seu desespero, afinal sou uma admiradora do Paint desde que ele atendia por Paintbrush.

Se você é mais ou menos da minha época (algo me diz que você é), deve ter alguma lembrança tenra de infância usando e abusando do seu Windows 95 para fazer desenhos descolados no Paint. Tal qual Bansky, você escolhia a hora certa de usar o spray. Como um Romero Britto em formação, você forçava a barra para usar o máximo de cores que o programa oferecia. Mais habilidoso que um Vik Muniz, você era capaz de decifrar os garranchos que seus amigos faziam. Bons tempos.

Mas o Paintbrush cresceu e eu também. Ficou minimalista, perdeu a cara de editor de imagens da vovó, mas continuou esbanjando simpatia e funcionalidade (talvez como eu também?). Ele tinha tudo para cair no ostracismo junto com o Bloco de Notas e o Campo Minado, mas não foi bem isso que aconteceu.

Devo dizer que eu estava errada quando vacilei em rechear meu LinkedIn com a seguinte habilidade: Paint avançado. Ele já garantiu o meu diferencial em mais de um emprego.

No estágio eu comecei a brilhar simulando como deveriam ficar as telas do sistema que eu dava suporte (pasme, o Paint já ajudou e impressionou a TI da maior universidade deste país). Depois, ele me ajudava em pedidos de arte para designers (era sempre mais fácil já mandar o mais mastigado possível). Hoje eu uso como suporte para alterar imagens no WordPress.

Imagem cortada no Paint #inception

É claro que o estagiário estava certo: já existem mil programas melhores e mais completos que desempenham as mesmas funções que o Paint. Mas não deixei de ficar desconfortável com a absoluta falta de intimidade que ele exibia com um programa que tem, sei lá, umas cinco funções no máximo.

Foi irresistível não fazer a comparação com a minha situação. Eu nunca fui brilhante, ligada em novidades, habilidosa na vida (e na computação). Eu sou como o Paint: vou levando, dou para o gasto, me viro com o que tenho, mas claramente não sou o melhor que o mercado oferece.

Isso pode ser uma coisa boa ou ruim, tudo depende do referencial — no caso, o grau de habilidade computacional do seu chefe. Pouco adianta jogar ouro aos porcos, como sinto que acontecerá com o meu colega. Mas não deixa de ser triste porque ninguém te exige muito mais do que aquilo que você já sabe (e que é extremamente simples).

Depois de 32 anos, a Microsoft acabou com o Paint. Esta semana eu fiz 30. Substituída pelo estagiário eu já fui. Talvez seja bom ir atrás de um cursinho de Photoshop. Ou melhorar minhas habilidades com o Campo Minado. Para garantir.

 

 

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One thought on “Pinta com o meu paint

  1. Eu sou como o Paint: vou levando, dou para o gasto, me viro com o que tenho, mas claramente não sou o melhor que o mercado oferece. – adorei essa parte, dá vontade de colocar no LinkedIn!

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