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Por Vanessa Henriques

Ei, você, que está aí rolando o dedo sem propósito no feed no Instagram, do Twitter, Facebook ou LinkedIn. Desculpa atrapalhar, mas só queria deixar um recado: você está admirando as pessoas erradas.

Tudo bem, eu te acompanho nessa. Eu também ando me vendo com raiva/inveja de uma porção de gente por aí — conhecidos e desconhecidos também. Gente que sabe tirar selfie. Gente que transborda conhecimento. Gente que é engraçada. Gente que é feliz no emprego. Gente que vai para a praia toda a semana (e que posta as fotos da praia na quarta-feira, pra te pegar no pior momento de depressão de dia útil). Eu estou errada, e você também.

Toda vez que eu abro o Instagram, toca no fundo da minha cabeça o clássico do Lulu Santos “S.O.S. solidãooo”. É tanta pose, tanta selfie e tanto filtro que só pode ser falta de companhia. Sabe aquele rolê tão bom que ninguém lembra de tirar foto? É isso que eu quero.

Toda vez que eu abro o Twitter, toca no fundo da minha cabeça a minha música preferida do Raul Seixas, Ouro de Tolo, que ele só fala verdades como estas: “É você olhar no espelho e sentir um grandessíssimo idiota saber que é humano ridículo, limitado que só usa dez por cento de sua cabeça animal/E você ainda acredita que é um doutor padre ou policial que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social”.

Toda vez que eu abro o LinkedIn, logo me vem o Poema em Linha Reta, do Álvaro de Campos: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. (…) Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?”

Por sorte, eu não tenho Facebook.

O pior é que eu abro essas redes todos os dias. Mais de uma vez por dia. É vício, eu sei. É a tecnologia que te engolfa. É a economia, estúpido. E cada dia uma caraminhola nova entra na minha cabeça por causa dessas desgraçadas redes que se dizem sociais.

Eu me tornei uma pessoa invejosa, e eu odeio esse sentimento. Quero a selfie da fulana, o trabalho do sicrano, a inteligência do beltrano. Só que eu só tenho eu, poxa, que pena. Eu que não sei tirar selfie nem fazer story, eu que nunca ganhei mais do que 5 curtidas, eu que mando currículos toda semana há meses e não sou chamada para nenhuma entrevista.

Só faltou perguntar: desde quando alguma dessas coisas foi a minha meta de vida? Quando que eu quis tirar foto de biquíni e postar para todos os colegas do trabalho verem? Quando que eu quis posar de fodona desconstruída? Quando (meu Deus, quando??) eu quis ser a pessoa que ama o trabalho e compartilha fotos e textos sobre como ele é bacana?

Então a conclusão é que eu tô admirando as pessoas erradas. Não que elas estejam erradas, longe disso. Mas elas estão ali, mais expostas, e a um clique de distância e uma página sem fim para ficar rolando sem pensar em nada.

Vamos usar aqueles 10% da nossa cabeça e voltar a pensar? Vamos parar de cultuar semideuses? Não quero ficar ouvindo o som da minha própria voz a repetir um pedido de ajuda. Eu não tô precisando de S.O.S., tô é precisando de paz.

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.