Uma vida sem tomate

Por Vanessa Henriques

Se você é um grande apreciador de sacolões, feiras e afins, deve ter notado que o tomate está pela hora da morte — R$9 o quilo, para mostrar que fui a campo. Há uma série de alternativas, que vão desde o pimentão até o radioativo molho pronto. Nenhuma delas, no entanto, parece substituir o tomate nos corações.

É só você se aproximar da gôndola que alguém vem se lamentar. “Esse tomate verde por esse preço?”. “Tem mais baratos, mas estão todos horríveis”. “Tomate cereja não dá molho”. Eu não me faço de rogada, engrosso o coro com gosto (já que o molho tá difícil de engrossar).

Há alguns anos — no longínquo 2013, para ser mais precisa — o tomate quase derrubou Dilma Rousseff. Reportagens enxotavam o “vilão da inflação”, charges tiravam sarro das dificuldades (da presidente e do legume), consumidores indignados davam entrevistas na feira.

Lembro-me de um professor de economia da faculdade que disse que todo ano, lá pra março, o tomate dispara. Dura algumas semanas, depois vai baixando. Naquele fatídico ano, todos foram à carga, já que o clima não tava lá muito bom para Dilma. Confesso que não fiz um acompanhamento ano a ano, mas lembrei da anedota esses dias.

Fui ao Google, o novo pai dos burros, procurar informações sobre a disparada do tomate. Encontrei um link falando da situação no Rio Grande do Sul, dizendo que as chuvas prejudicaram a safra, e o preço subiu porque os estados começaram a comprar um dos outros para suprir a demanda. Nada além.

Se você entrou essa semana em um portal de jornal encontrou notícias sobre o nazismo ser de esquerda, um novo impeachment (deja vu?), ingressos para shows e filmes impossíveis de serem comprados e a quadragésima condenação de Sérgio Cabral.

Nada de útil e nada que nos ajude a viver sem tomates. Aliás, dá vontade de ter um belo tomate italiano suculento em mãos para tacar na cabeça de c e r t a s pessoas.

Será possível que ninguém se importa com o preço do tomate? Estamos tão embasbacados em discussões estéreis para nos preocupar com a vida mundana de todo dia? Como fica a macarronada, o recheio do pastel de pizza, o molho do hot dog, o strogonoff e a lasanha? Eu não sei você, mas eu acho isso muito sério.

Pode ser difícil de acreditar, mas um tomate com preço alto tem muito mais impacto na nossa vida do que as asneiras que o presidente fala. Para ter circo, tem que ter pão também, antes se dizia. Pelo visto agora nem isso é preciso.

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2 thoughts on “Uma vida sem tomate

  1. kkkk muito bom!! talvez se trocassem os discursos do presidente pelo discurso de algum tomate sobre sua atual situação, seria muito mais interessante para nós rsrs eu também prefiro as macarronadas e as lasanhas! bjs

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