Virei tia(zona)

Por Vanessa Henriques

Há duas semanas minha irmã colocava no mundo um novo ser. Minha primeira sobrinha, Olívia, nasceu com mais de 3 quilos, um par de perninhas compridas e a carinha mais hipnotizante que eu já vi. Em plena sexta-feira santa, virei tia.

Graças a Deus!, eu exclamei, já me conformando com meu destino. Passei dos 30 anos e tenho uma sobrinha, logo posso ser a tia religiosa, que solta frases exultantes e acende velas pela casa. Já posso mandar benzer santinhos e trazer medalhinhas de toda igreja longínqua que visitar.

Neste mesmo mês, percebi que meu cacto estava produzindo uma nova haste (como se chama uma parte de cacto?). Acompanhei o crescimento, reguei mais do que deveria, mandei fotos para amigos e parentes e fiz questão de dizer que eu fui responsável pela recuperação daquele cactáceo, que estava abandonado no meu apartamento quando o aluguei.

Percebi que rapidamente já tinha virado também a tia da natureza, que sempre lembra como as coisas naturais são perfeitas, que visita jardim botânico e enche a timeline com 400 fotos de palmeiras, arbustos e vitórias-régias.

Mas também não descuidei dos meus exercícios, continuei firme nas aulas de pilates, o exercício nº 1 na preferência dos trintões. Saí, obviamente, recomendando a todos os amigos que adotem a prática, porque define o corpo, não lesa a coluna e não tem aquela agitação de um crossfit (quem tem idade?). Virei a tia do pilates, RPG e yoga, sempre preocupada com a postura e o tônus muscular alheio.

E entre uma gastrite e outra, aprimorei meu cardápio sem café, sem chocolate e com verduras cozidas. Descobri as maravilhas do chá e de uma vida sem tanto açúcar, sem bebidas com gás ou legumes fermentativos. Troquei receitas antirrefluxo e fiz ranking de antiácidos com colegas de trabalho. Virei a tia do problema de estômago, aquela sempre com um chá ou um conselho gástrico à mão.

E já que a saúde anda pedindo, passei a cozinhar meu almoço e janta todos os dias. Voltei a frequentar feiras, mercados e sacolões. Reclamei do preço do tomate e do feijão, e julguei os hábitos alimentares pouco saudáveis alheios, como uma boa tia Rita Lobo.

Eu poderia ser honesta, Olívia, e dizer que tudo isso foi resultado de um processo que já estava em curso, que a idade chega para todos e comigo não seria diferente. Mas prefiro dizer que fiz tudo isso porque, às 5 horas da manhã de uma sexta-feira, você nasceu.

Eu te perdoo por ter trazido toda essa mudança nos meus hábitos joviais de vida, com uma condição: que você nunca se canse dos meus conselhos sobre Deus, cactos, estômagos, tomates e tantas outras coisas que pretendo te mostrar sobre esse mundo. Combinado?

2 thoughts on “Virei tia(zona)

  1. Muito legal Vanessa!!!
    Titios frescos, que alegria!!!
    Eles são tão fofinhos…tudo de melhor para Olívia!!!
    e Parabéns para a sua família!!

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