Rodamoinho

Por Vanessa Henriques

É constrangedor admitir isso, mas eu tô com saudades do novo normal. Era live todo dia, comerciais emocionantes de banco sobre a importância da união, repórter fazendo máscara de manga de camiseta ao vivo e a permanente sensação de estar vivendo todos os dias naquela tirinha clássica da Turma da Mônica (“O que está acontecendo?”/“Eu não sei!”). 

Naquele misto de todo mundo fora da casinha, sem saber o que fazer ou o que pensar, quando até o Dráuzio Varela mudava de ideia, estava a clareza de que todos estávamos perdidos, juntos. E que nada estava normal. Saudades do que a gente viveu (por dois meses). 

Antes que me acusem de insensível, não tô romantizando o pânico de não saber o que ia acontecer nos próximos dias, a espera pelo pico, pelo platô e pela redução de casos (que até agora não veio), a sensação de que nunca ia acabar. Parte desse sentimento se diluiu no andar do calendário, parte ainda está conosco.

E alguém sabe? (Reprodução)

O que realmente sinto falta é a noção de que não dá para manter a produtividade de antes, só que de pijama em casa. É massacrante. Tempos excepcionais exigem cobranças excepcionais, mas parece que nos esquecemos disso lá pelo quinto mês de aula online. Oito horas de expediente (aliada à sensação de morar no trabalho) tá fazendo sentido para todo mundo? Obrigar uma criança a ficar horas a fio na frente de uma tela é mesmo a melhor solução?

Atingido um ponto mínimo de equilíbrio (que nada tem a ver com normalidade), parece que bateu uma preguiça coletiva de pensar em melhores soluções. Vamos indo em frente, e eu vou também, sozinha não vou (nem tenho como) saltar desse barco. 

Quando temos aqueles 5 minutinhos de lucidez, aparecem os dilemas da Tostines: a aula online não empolga o aluno porque é online ou porque a escola offline já não fazia sentido? O home office cansa porque é em casa ou porque ninguém é produtivo por tantas horas seguidas? O álcool gel limpa ou meleca mais a mão? Mais vale uma PFF2 solta ou uma máscara de pano surradinha bem colocada?

Mas logo lembramos dos prazos, dos invites, das notificações, nos acostumamos com a tremedeira no canto do olho e seguimos, desejosos de uma vacina que vai nos colocar pra correr na roda do hamster do jeito que sempre fizemos, ufa, que alívio.

“O mundo jamais será o mesmo”, dizia a propaganda emocionante de uma companhia telefônica. Eu acreditei, mas 14 meses depois, vejo que estamos trabalhando como nunca para tudo ficar como sempre — e não tem nada de normal nisso. 

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.