Nada acaba

“uma carta que chegou depois, o amor acaba; 

uma carta que chegou antes, e o amor acaba”

O amor acaba, Paulo Mendes Campos

Por Vanessa Henriques

Sim, nada acaba. Como? Quando? Você começa a assistir um episódio de seriado, por exemplo, num domingo de lua nova, e depois de 40 minutos sem grandes desenvolvimentos de trama, vem um gancho irresistível para você emendar mais um episódio; você assiste mais um, e mais outro, até que termina a temporada e já começa a rolar o catálogo em busca do próximo. Resolve assistir um filme, e ele acaba, mas logo você descobre que já estão filmando a sequência, a prequela, o spin off. Abre o celular, e um infinito de notificações te lembra que o trabalho não acaba (saudades da folha de ponto, essa sim acabou). Ele está por todos os lados, nas suas mensagens, nas ligações de vídeo fora de hora, na gestão incessante e meticulosa de redes sociais — que também não acabam, num deslizar infinito de dedos que leva a lugar algum. Lá estão também os ex-namorados, os ex-colegas de trabalho, os amigos de quem não sabemos mais o nome, e um sem-fim de narcisos olhando para todos os (bons) ângulos do espelho. Relações acabadas, mas que desfilam desbotadas pelos filtros azulados nas cores de Brasília, Rio, Belo Horizonte e São Paulo. Você resolve ler as notícias, mas elas só nos lembram de tudo que não acaba: desmatamento, corrupção, miséria, fome, os mesmos rostos reciclando promessas vazias para a próxima eleição. A pandemia que não desemboca num carnaval, num êxtase descontrolado, mas sim num cansaço, ai, que preguiça. A louça na pia todos sabem que não acaba, a poeira no móvel, a roupa para passar, a conta para pagar. A inflação também não acaba, sobe, desce, passeia nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque, e retorna; não no preço remarcado, mas na certeza de que comprou por engano um anel de brilhantes junto com a última compra. Até o ciclo da água, tão constante: evaporação, condensação, precipitação, infiltração, insiste em não acabar, e falta água nos reservatórios, nas torneiras (faltam torneiras também); as estações do ano também não acabam, e nos surpreendem num vai-e-vem de regatas, cobertores e chinelos de dedo com meia. Nada acaba para que tudo possa continuar não mudando em todos os lugares.

Rodamoinho

Por Vanessa Henriques

É constrangedor admitir isso, mas eu tô com saudades do novo normal. Era live todo dia, comerciais emocionantes de banco sobre a importância da união, repórter fazendo máscara de manga de camiseta ao vivo e a permanente sensação de estar vivendo todos os dias naquela tirinha clássica da Turma da Mônica (“O que está acontecendo?”/“Eu não sei!”). 

Naquele misto de todo mundo fora da casinha, sem saber o que fazer ou o que pensar, quando até o Dráuzio Varela mudava de ideia, estava a clareza de que todos estávamos perdidos, juntos. E que nada estava normal. Saudades do que a gente viveu (por dois meses). 

Antes que me acusem de insensível, não tô romantizando o pânico de não saber o que ia acontecer nos próximos dias, a espera pelo pico, pelo platô e pela redução de casos (que até agora não veio), a sensação de que nunca ia acabar. Parte desse sentimento se diluiu no andar do calendário, parte ainda está conosco.

E alguém sabe? (Reprodução)

O que realmente sinto falta é a noção de que não dá para manter a produtividade de antes, só que de pijama em casa. É massacrante. Tempos excepcionais exigem cobranças excepcionais, mas parece que nos esquecemos disso lá pelo quinto mês de aula online. Oito horas de expediente (aliada à sensação de morar no trabalho) tá fazendo sentido para todo mundo? Obrigar uma criança a ficar horas a fio na frente de uma tela é mesmo a melhor solução?

Atingido um ponto mínimo de equilíbrio (que nada tem a ver com normalidade), parece que bateu uma preguiça coletiva de pensar em melhores soluções. Vamos indo em frente, e eu vou também, sozinha não vou (nem tenho como) saltar desse barco. 

Quando temos aqueles 5 minutinhos de lucidez, aparecem os dilemas da Tostines: a aula online não empolga o aluno porque é online ou porque a escola offline já não fazia sentido? O home office cansa porque é em casa ou porque ninguém é produtivo por tantas horas seguidas? O álcool gel limpa ou meleca mais a mão? Mais vale uma PFF2 solta ou uma máscara de pano surradinha bem colocada?

Mas logo lembramos dos prazos, dos invites, das notificações, nos acostumamos com a tremedeira no canto do olho e seguimos, desejosos de uma vacina que vai nos colocar pra correr na roda do hamster do jeito que sempre fizemos, ufa, que alívio.

“O mundo jamais será o mesmo”, dizia a propaganda emocionante de uma companhia telefônica. Eu acreditei, mas 14 meses depois, vejo que estamos trabalhando como nunca para tudo ficar como sempre — e não tem nada de normal nisso. 

A pipa

Por Vanessa Henriques

Por um bom tempo pandêmico — vá lá, uns 6, 8 meses — um vizinho do meu prédio empina pipas de sua janela todos os dias. Eu percebi enquanto trabalhava na sala, de frente pra janela, ainda me acostumando à parca ergonomia do home office.

Eu achei bonito, sabe? A gente trancado em casa, sem saber o que seria do mundo diante de um vírus microscópico. Mas alguém saía na janela do décimo andar, e mostrava que o vento ainda estava por aí, que nós ainda estávamos aqui, e que ainda conservávamos um pouco da nossa ousadia. 

Eu nunca fui muito chegada em pipas, mas gosto do seu princípio de desafiar o vento, rasgar a monotonia do céu com cores, sempre com seu jogo de puxar e soltar feito com equilíbrio. Preferia voar em balanços, agarrada na segurança pífia que a cordinha deixa nas mãos. Soltar não é meu forte.

Já o vizinho continuou a empinar sua pipa relaxadamente. Logo imaginei um pai aflito dentro de casa, sem saber mais o que oferecer de entretenimento para os filhos, que recorreu à pipa para entretê-los nos dias mais críticos. Estiquei o olhar pra cima da minha janela, como que para confirmar esse enredo, mas só vi um homem adulto. Ele olhou para baixo, e eu desviei o olhar. 

Uma pipa tão pipa no céu (Foto: Vanessa Henriques)

Curioso. Comecei a reparar que ele soltava pipa mais de uma vez por dia, de diferentes cores, que conseguiam subir bem alto, muito além dos limites do condomínio. Comecei a trabalhar em outro cômodo, e esqueci do vizinho e dos quadrados. 

Com o passar dos meses, a pipa continuava no céu, mas eu só conseguia ver os restos das rabiolas, que passaram a enrolar nas minhas plantas. Um papagaio azul atrapalhando os papagaios verdes, que moram na palmeira aqui em frente. O barulho chato da vareta batendo na grade da varanda, depois na parede, depois no vidro da janela, até conseguir alçar voo. 

Irritada, recorri ao síndico. Prometeu estudar alguma medida, mas também disse que o vizinho em questão “era complicado”, seja lá o que isso signifique. E eu vou colecionando restos de rabiolas na minha floreira…

Não tenho esperanças que ele vá mudar, ou mesmo que seja multado ou advertido. O que mais me decepciona é saber que ele conseguiu tirar a pouca beleza dos dias que vivemos com o excesso. Fosse uma pipa, vez ou outra, tudo bem. Mas todo dia, cansou. É como essa quarentena, que ofuscou o brilho dos dias de preguiça em casa.

As pipas me lembram, todos os dias, de que ainda estou presa aqui, irritada com o que antes me agradava, mudando meus gostos e meus humores sem nem perceber. Quando elas voltarem a colorir o céu, irrestritas, meu voo já não será mais o mesmo. 

Sabendo que era impossível, foi lá e não fez

O curioso dos sonhos é que eles se alimentam de muitas coisas — e 80% delas são pura bobagem. Quem nunca se imaginou fora do escritório, fazendo o que ama, trabalhando menos e ainda, de quebra, contribuindo para melhorar a sociedade?

Eu já começo levantando o dedo: sim, é claro que eu já pensei nisso. Quem, depois de 8 horas de expediente e 2 horas sacolejando no metrô, não pensou nisso? Não precisa ser bidu para perceber que o que estamos fazendo hoje é inútil e está nos condenando a uma vida cada vez mais infeliz. 

As ideias fervilham. Vou comprar um sítio, plantar minha taioba orgânica e vender no mercado de Pinheiros! Vou abrir uma livraria com floricultura (a perfeita junção de dois negócios de inegável insucesso)! Vou abrir uma escola com uma metodologia livre e muitos jardins (te cuida, Waldorf!)! Vou vender minha granola, minha arte na praia, meu bolo de chocolate no pote! 

Uma pena que a minha imaginação não se atente a um pequeno detalhe: também precisa ganhar dinheiro. Mas quem precisa de realidade quando se tem histórias de sucesso para consumir? 

O roteiro é batido: “Eu trabalhava 14 horas por dia na Bolsa, mas sentia que faltava um propósito na minha vida. Decidi vender meu apartamento e passei 2 anos em Paris aprendendo a fazer queijos artesanais. Voltei para o Brasil, me instalei na fazenda que era do meu avô, e hoje sou um produtor de queijos sustentável, ajudo a comunidade do entorno e ainda faço a lição de casa dos meus três filhos”.

Você pode trocar “mercado financeiro” por “agência de publicidade”, “Paris” por “Tailândia” e “queijo artesanal” por “chef de cozinha”, tentar outras combinações, mas o resultado não vai mudar muito. Há relatos como esses em todos os lugares, desde a embalagem do requeijão até o caderno de negócios do jornal.

Eu até poderia me queixar aqui da narrativa neoliberal do sucesso, da meritocracia nepotista ou da praga que é o Instagram, mas corro o risco de soar batida. O que eu queria compartilhar é só a minha certeza de que escolhi o propósito certo, mas o caminho errado.

Eu adoro taioba e um café filosófico, mas achei que o caminho para isso era fazer uma faculdade de humanas, arrumar uns amigos bacanas, ser feliz com pouco, cultivar cactos em chão de taco. Ledo engano.

Para ter tudo isso eu precisava ter me dedicado ao mercado financeiro com uns 20 anos, quando eu ainda tinha vértebras e retina para isso. Ter emendado a segunda graduação e a pós antes de esquecer a ordem das gerações de direitos humanos. Esquecido o aniversário da minha mãe mais de um ano consecutivo. E aí, um dia, viria a epifania, e eu estaria livre (e, mais importante, com a conta abastecida para ser livre) dos males do mundo moderno.

Agora a escoliose tá pegando, a cabeça não aguenta 8 horas de expediente e mais aquele curso online pra dar “up” no currículo, e só de pensar em investir na bolsa já abro um bocejo. Esse bonde já passou (será que algum dia ele foi uma opção?).

Estou triste? Um pouco, mas também estou verdadeiramente livre. Livre das expectativas irreais, dos planos mirabolantes sem chão e dos “cases de sucesso” que não servem para 99% da população. Tenho menos pressa, também. 

Quem sabe agora eu consiga enxergar melhor os 20% que restam.

Macarrão com salsicha

Por Vanessa Henriques

Evitei ao máximo nos últimos oito meses em falar sobre “novo normal”. Tinha medo que saísse um texto mal humorado, afinal não vejo lá grandes mudanças no mundo e tenho horror a jogadas melosas de marketing.

Mas uma troca de emails com uma amiga me fez mudar de ideia. Ela comentava que estava gostando de passar mais tempo em casa, que adorava tomar café da tarde e um sol depois do almoço, e ainda se gabou de ter comido um delicioso macarrão com salsicha no almoço.

Ponderou que apesar de cansativo e sem muitas emoções, esse período de quarentena abriu a possibilidade de fazer coisas que antes eram impensáveis — tipo tomar um café da tarde demorado na companhia de quem se ama. Que horrível pensar que isso é raridade, né?

E é mesmo. Respondi para ela que também oscilo entre o tédio profundo e uma alegria imensa de estar em casa enquanto lá fora cai uma forte chuva — tão gostosa daqui de dentro, e tão terrível para quem depende de transporte público. De máscara, ainda por cima.

Só que os sinais do velho normal batem à porta, só esperando para acabar com a nossa alegria. Uns amigos já voltaram ao trabalho presencial, os que têm escolha, relutam, e no fim nem sei o que restará de memória deste 2020. 

Será lembrado como um ano de penúria, incerteza e completo desespero? Justo. Ou como o ano em que eu mais fiquei na companhia do meu marido, acompanhei minhas plantas crescerem, pude tomar café na hora que eu quisesse, sem prejuízo de produtividade? Também faz sentido.

Viver numa toca, no conforto do pijama e do WhatsApp (sem câmera ou áudio, pelo amor de Deus!), também não tem cara de vida. Será que é isso que estamos desejando? Acho que não, mas não nos foi dada uma escolha. Ainda querem comprovar, a todo custo, que estamos funcionais, robozinhos, alternando entre Netflix, Instagram e trabalho.

O normal mudou de roupa e de endereço, mas ainda atende por… tempo é dinheiro. Se você parou para comer macarrão com salsicha, perdeu uns pontinhos (ou seriam centavinhos?). Adiou a leitura de um email para tomar chá com bolo? Não reclame depois se não tiver futuro!

Por isso que na minha cabeça ouço um tic-tac, baixinho, dizendo: “um dia vai ter fim”.

Fenda

Por Vanessa Henriques

Da fresta da janela

vejo uma nesga de vida

 

Pássaros fazem algazarra

gritam, se movem

folhas voam

ou só balançam com o vento

o sol bate

só pra depois ir embora

 

E eu fico no meu canto

a esperar

a desejar

que a vida seja maior que essa brecha

Retalho

Por Vanessa Henriques

Onde guardar as lembranças?

No fundo da gaveta ou do coração?

Na dúvida, deixo nos dois lugares.

E quando dou de tirar a poeira, fico

feliz pelo que vivi

e às vezes triste pelo que não volta mais.

Tento reunir as fotos, bilhetinhos e papeizinhos numa só caixa

mas quando vejo, eles estão por toda parte

é inútil contê-los.

E eu também

fico por todo canto

espalhada

sem saber como ser uma.

meus retalhos (Foto: Carlos Oliveira)

Pra correr macio

Por Vanessa Henriques

Eu não fiz nada de útil na quarentena. Não visitei museus online, nem aproveitei para fazer um curso online em Harvard. Não li nenhum livro das listas de livros, nem fiz receitas mirabolantes (desculpe, mas pão não é uma delas). Não acompanhei lives nem cortei o cabelo. Assisti um ou outro seriado na Netflix, porque isso me exige muito pouco, mas pulei a lista dos 1001 filmes para ver antes de morrer. Não aprendi crochê, aquarela, ikebana ou origami. 

Não vá pensando que fiz muita coisa pela minha casa. Não esfreguei o rejunte dos azulejos, como prometi que faria. Não limpei os armários da cozinha nem o guarda-roupa. A pilha de roupa para passar cresce, se multiplica, dá filhotes, mas eu passo três leggings, lençóis e máscaras e sigo a vida.

Mas eu fiz algumas coisas, sim, claro, em sessenta dias. Escrevi matérias (fiquei devendo as crônicas), vi novela, tricotei um cachecol, fiz finalmente a receita de polenta com couve da minha mãe. Ri de incontáveis passarinhos piando na janela, pedindo mais pedacinhos de banana. Cortei incontáveis pedaços de banana, bem miudinhos. Reguei, olhei, admirei todas as plantas de casa (não são poucas). Plantei novas. Passei bem mais tempo do que o costume com meu marido, o que me faz bastante feliz.

Tempo é plantar ipês em vasos (Foto Vaness Henriques)

Eu queria ter feito muito mais, confesso. Até os itens do primeiro parágrafo, por que não? Mas falta tempo e disposição. O tempo desconfio que se esconde entre WhatsApps constantes, o trabalho com as mesmas cobranças de sempre e as duas horas necessárias para higienizar todas as compras do mercado. A disposição vai embora a cada passada de olho pelas notícias ou qualquer nesga de especulação sobre o futuro. 

O tempo pouco me pertence, odeio admitir. Eu corro atrás dele, me planejo, estrago tudo, recomeço, e ele tá sempre na minha frente, uma lebre, rindo do meu esforço de tartaruguinha. Eu achei que, estando em casa, seria minha vez de dar uma rasteira nele. Não foi dessa vez, parece.

Admito que parte dele eu gasto maquinando um futuro sem pressa, quase idílico, em que eu terei… tempo. O que falta para chegar lá? Estarei exigindo demais de mim? Minha pretensões não cabem na minha vida ou eu só continuo adiando todas elas enquanto reclamo da falta de tempo? 

Muito se falou sobre um novo mundo pós-pandemia. Concordo em partes. Adaptações serão obviamente necessárias, e a temida crise econômica virá (ou continuará, para ser mais exata). Alguma mudança individual também deve ocorrer, num efeito quase de promessa de começo de ano. 

Mas não consigo deixar de ver o mundo antigo à espreita, só aguardando para se refestelar no que chamamos de normal. Nele, eu já sei de antemão que faltará tempo. Resta saber qual será minha disposição para lidar com isso.

Ela é dançarina

Por Vanessa Henriques

Há um ano mudei de horário no trabalho. Ao invés de fazer horário comercial ou algo perto disso, passei a entrar às 17 horas e sair às 1 hora da madrugada. Já fazia esse horário ocasionalmente, mas tive a oportunidade de adotá-lo permanentemente e aceitei.

Nos primeiros dias me senti fora do universo. Enquanto todo mundo trabalhava, eu me espreguiçava na cama às 10 horas de uma terça-feira. Almoçava na hora do café da tarde de muita gente. E quando finalmente saía para trabalhar, dava de cara com os rostos felizes no metrô de quem vai para casa comer e botar um pijama.

Aos poucos o corpo foi se acostumando e vi vantagens nesse dia estendido. Minha produtividade sempre foi melhor pela manhã, então eu fui me ajustando. A casa ficava mais limpa, o almoço e a marmita da janta sempre feitos, e ainda consegui voltar a fazer exercícios. Parece bom.

Ainda continua bom, mas cheguei à conclusão que a procrastinação é que mudou muito. Num dia normal, você vai trabalhar, volta, come alguma coisa e se joga no sofá, certo? Eu já fiz isso milhares de vezes. 

Agora, experimenta acordar às 11 horas, comer alguma coisa e se jogar no sofá numa quarta-feira. Algo não encaixa. Você sabe que não pode se render ao ócio completamente, porque mais tarde terá de sair. Mas pode tirar uma soneca. Você não pode ficar inventando mil faxinas e afazeres, porque ainda tem uma jornada de 8 horas pela frente. Mas você tem todo esse tempo nas mãos. Você não pode ficar bravo com quem acordou às 6 horas e agora passa, lépido e fagueiro, do seu lado na rua, comemorando sua liberdade. Mas você pode invejar.

Ter mais tempo (ou ao menos um tempo diferente nas mãos) te obriga a pensar o que fazer com ele. Amanhã vou no pilates, vou fazer o almoço. No dia seguinte vou visitar minha avó. Na sexta vou almoçar com mozão (ele é funcionário). E por aí vai.

Para quem é afeita às listas e às obrigações autoimpostas, isso pode ser um perigo. Tem dias que tudo que a gente precisa fazer é absolutamente nada do que a sociedade considera útil, sem culpa nenhuma. Vou reservar um dia para isso, com certeza. Epa.

Ou talvez a chave seja abraçar a produtividade sem medo, planificar tudo, nem que seja a soneca, e viver essa rotina ao contrário ao máximo. Afinal, ninguém sabe quando isso vai mudar ou acabar. Pode ser amanhã ou no próximo ano.

Só queria compartilhar com vocês, seres que habitam o mundo normal, por onde ando pelas madrugadas. E pedir desculpa por aquele zap na hora errada ou por melar todas as tentativas de happy hour. 

Vocês não ouviram falar que a moda agora é almoçar? De preferência um brunch? Se quiserem companhia, estamos aí.

Vendeu-se

Por Vanessa Henriques

Alguém insiste: vamos lá na nossa rua

Eu vou

Mas na rua já não há mais nada de mim.

 

A rua da minha lembrança era ampla, com árvores, pouca gente

Era sem pressa, sem tempo, brincar de ver nuvens

Era um portão barulhento, uma porta pesada, e o alívio de estar protegida da chuva ou do perigo.

 

Agora vejo prédios altos, desajeitados na minha rua

Carros por todos os lados, subindo pelas paredes

Ela não foi feita para comportá-los.

 

E da casa, só sobrou uma fresta, um muro alto, nada mais se vê.

E de mim só sobrou essa, lembrança do que não se pode mais ser.