tudo certo para hoje? ;)

Por Vanessa Henriques

O encontro tinha sido marcado na semana anterior. Amiga antiga, tomaríamos um café, falaríamos do trabalho, dos namorados, da vida. Marquei na minha agenda, ela também. No dia da saída, toca o celular com uma mensagem: oi, tudo certo para hoje? 😉

Desta vez foi ela, mas poderia ter sido eu. Tenho observado há um tempo como a nossa palavra talvez não valha mais nada, ou talvez as agendas eletrônicas e de papel andem falhando miseravelmente, ou que todos sofram de um crônico desmemoriamento. Só isso explicaria essa irritante necessidade que temos de confirmar compromissos insistentemente.

Lógico que há casos e casos. Encontro marcado há semanas, dia ruim no trabalho, chuva que começou às 17 horas. Saco o celular: oi, tudo certo para hoje? — quando na verdade queria dizer: oi, preguiça eterna para hoje? A simpática mensagem pode muitas vezes esconder um pedido de socorro. Esteja atento aos sinais.

E às vezes a confirmação é salvadora, como aquele telefonema da clínica do Dr. Marcos lembrando do seu exame amanhã às 9 horas da manhã — do qual você havia se esquecido totalmente, afinal o Dr. Marcos é muito concorrido e você precisou marcar esse exame há semanas.

Mas não deixa de ser irritante essa obsessão pela confirmação do que já foi agendado. Já me peguei algumas vezes num micro pânico depois de me dar conta de que não havia confirmado o compromisso marcado. Ah, e se não vierem? Vou ficar possessa, penso. A pergunta que deveria fazer é: por que não viriam? Está marcado, não importa há quanto tempo.

Eu não sei dizer se os compromissos são cada vez mais cancelados. Ou se há muitos compromissos, e aí o cancelamento aumenta também. Mas a percepção é a de que sempre alguém tenta se safar. Ou não consegue sair do trabalho. Ou esqueceu. Ou não tá a fim.

E por isso precisamos confirmar e reconfirmar tudo. Até aquele bar marcado hoje no almoço. Tá de pé?, vibra o celular na mesa. Pensando bem, essa chuva, esse trabalho atrasado… se não tivessem mandado a mensagem eu ia, mas se mandaram, é porque tem coisa, não?

Contando dias

Por Vanessa Henriques

Sempre admirei o exercício do jejum. Seja na quaresma ou no ramadã, acho importante reservar um tempo para reflexão e também para perceber nossos vícios, fraquezas e limites.

Meu namorado sempre foi adepto de uma restrição na quaresma, minha irmã também. Eu fazia que jejuava, escolhia algo que não me fazia lá grande falta (como refrigerante) e passava esses 40 dias na flauta. Assim ficava fácil fazer essa mezza purificação, mezza calabresa.

Esse ano foi diferente — e não foi porque eu me toquei que estava fazendo isso errado, claro, essa iluminação foi posterior. Por motivo de força maior (leia-se por motivo de gastrite maior), estou numa quaresma radical. Sem fritura, chocolate, café, nada com gás e, não menos importante, sem batata-doce.

Nesse período de provação já passei por algumas fases da abstinência, que estão melhorando com o tempo (o único que ainda não consigo levar numa boa é o cheiro de café recém-coado). Aquela vontade fulminante abriu lugar a uma adaptação e, em certa medida, conformação com o meu destino.

Passei a perceber também outras questões que antes não enxergava. Às vezes não é a comida/bebida que faz falta, mas sim o hábito social e, para ser mais precisa, o tédio.

Responda rápido: o que você faz para a tarde no trabalho passar mais rápido se não pode comer chocolate, tomar café ou chupar uma bala?? Só resta encarar o vazio existencial sem nenhuma distração — o que, convenhamos, não é nada agradável.

Além das questões filosóficas, há uma parte prática importante. Experimente encontrar em bares e restaurantes um cardápio amigável à gastrite. Não precisa ser bidu para entender que a busca será no mínimo sofrida.

E isso fez com que eu experimentasse situações bastante inusuais. Afinal, hay que curar el estomago, pero perder na vida social, jamás! No bar: pedi um waffle com sorvete (quase esqueci de pedir para tirar a cobertura de chocolate, mas fui salva pelo serviço lento do lugar). No restaurante por quilo: peguei um monte de coisa que não devia, paguei caro, e tive que deixar no prato. Aqui entra a fatídica e deliciosa batata-doce assada que tive que abandonar (mamãe te ama e volta pra te buscar quando tiver boa!). No McDonalds: me recusei a comprar uma salada ou uma maçã ali, voltei para casa e comi bolacha maisena.

Sairei purificada deste jejum prolongado? Acredito que sim. Corro o risco de retroceder à estaca zero? É provável. Ao menos agora conheço o cardápio “saudável” de boa parte dos lugares que frequento e todas as marcas de bolacha maisena à venda no supermercado. Quaresma de 2018, me aguarde!

Solapado

Por Vanessa Henriques

Quando abrimos mão das solas?, pensava eu caminhando pela rua enquanto uma bolha se formava debaixo do dedinho do pé. Era uma bolha nova causada por uma sandália velha. O tornozelo também já reclamava de outro episódio envolvendo uma sapatilha usada no dia anterior. O calcanhar, coitado, nem se dava mais ao trabalho de reclamar.

Naquele momento cheguei à nefasta conclusão de que todos os meus sapatos me machucavam. Nem o tênis escapou —ainda que seja sempre a opção mais segura. Os saltos dispensam apresentação (e só fazem participações especiais mesmo), as sandálias rasteiras, com esse ar de inocência e conforto, são as piores (basta dizer que a sola é mais fina que o meu dedo mindinho). Havaianas não machucam a princípio, mas experimente fazer uma caminhada mais longa e depois voltamos a conversar.

Feito o diagnóstico, era preciso reverter a situação. Passo 1: encontrar sapatos com sola. Foi difícil? Um pouco, ainda mais com o agravante do pézinho tamanho 40. Mas consegui encontrar, com alguma persistência, modelos confortáveis e com os quais eu não sentia o asfalto com o dedinho.

Passo 2: matar o que está te matando (ou: jogar fora os sapatos desconfortáveis). Foi bem mais difícil que o primeiro passo, confesso. Por algum motivo desconhecido, não queria abrir mão de uma rasteira que não custou mais do que vinte reais, com uma sola de papel, que já havia deixado bolhas enormes no meu pé. O motivo? A maldita obsessão pela quantidade.

Sim, já falei sobre isso antes. Um guarda-roupa que não fecha não é necessariamente um bom guarda-roupa. Um sapato que te machuca, definitivamente, não é um bom item. Mas é mais um item, você pensa, temendo por viver com apenas um par de rasteiras.

Como ainda tenho só dois pés, enchi uma sacola com todos os sapatos que me tiravam o sossego e torci para ficar tudo bem. Posso ficar sem opções, mas ao menos terei uma folga das bolhas.

Sem limítrofes

Por Vanessa Henriques

Nada como um elevador cheio e uma cabeça de cronista vazia para surgir (roubar?) a inspiração. Um elevador funcionando no prédio inteiro, pessoas impacientes, procurando ou fugindo de assunto, mas certamente esgotando seu estoque de papo de elevador ainda na fila para o embarque.

Alguns minutos (séculos?) depois, chega o tão sonhado aparato. Embarco, num estilo CPTM, e aguardo pacientemente a chegada — obviamente, ele vai parar em to-dos os andares.

Eis que lá para o segundo andar adentra um grupo animado, e uma moça fala, toda espontânea “vou fazer exame de sangue hoje. Adoro fazer esses exames, eleva minha auto estima que é uma beleza”. Os amigos riram, o elevador todo ouviu e fez que entendeu, mas ela logo emendou “é que aparece lá que você está na faixa de bom/ótimo para tudo: colesterol, glicose, triglicérides. Me sinto com 20 anos!”.

Desci no meu andar, maravilhada com a simples e genial constatação. O que na sua vida está ótimo ou bom além do colesterol? Amor? Regular. Família? Médio. Trabalho? No máximo, limítrofe. É realmente um alívio pensar que ao menos aquele TSH está controlado.

Claro que isso nem sempre foi assim. A gente mal se aventurava a abrir aqueles envelopes cuidadosamente lacrados. Para os corajosos, dava de cara com o resultado: tireoglobulina, 3,5. Seria muito? Seria pouco? Só os deuses da medicina podiam bater o martelo: está tudo bem, tudo normal.

Hoje o resultado sai na internet, imprimimos no conforto do lar, já consultamos a faixa de desempenho e até dá tempo de se desesperar com os vereditos macabros do Google. Não deixa de ser um bom exercício de autoanálise e autoestima.

Você já começa a se punir lembrando daquele torresminho que fez subir esse colesterol limítrofe, planeja uma praia pra aumentar a vitamina D, e passa longe da sobremesa para baixar a glicose. Só não esquece de passar no médico para ele dar uma olhadinha. Vai que.

Terçapêuticas

Por Vanessa Henriques

Hoje é terça-feira, dia de terapia. Eu não escolhi exatamente esse dia da semana, mas era o único horário que cabia na rotina e, no fim, acabei me acostumando. Tenho uma amiga que faz terapia às segundas logo de manhã, antes do trabalho. Invejo a coragem, mas tenho certeza que no lugar dela já teria desistido.

E não pense que o problema é o horário, ou o fato de ser antes do trabalho. É por ser na segunda-feira mesmo. Além de um dia com tendências naturalmente depressivas, isso significa que se precisar resolver algo em horário comercial, você tem até sexta-feira à tarde (no mais tardar, sábado de manhã) para resolver a vida.

Não tem como dar aquele pulo do gato na segunda à noite ou mesmo durante a terça-feira, como é o meu caso. Explico: inexplicavelmente (ou talvez muito facilmente de explicar, mas isso deixo pra terapeuta) sinto, toda terça-feira, uma necessidade incontrolável de resolver a vida. Sim, a última sessão foi terça passada, aí teve aquele aniversário, no outro dia estava cansada, e depois precisei fazer janta e pronto: passou a semana.

O que vou falar pra terapeuta diante das zero coisas resolvidas? Não dá. É preciso reverter esta situação. Revejo listas. Faço telefonemas. Retomo a academia. Reflito, no banheiro do trabalho, sobre minha infância. Marco consultas médicas. Escrevo crônicas. Adianto o trabalho. Como comida saudável. Escrevo para os amigos. Ligo para a avó.

Talvez a terapia não tenha trazido lá grandes mudanças na minha vida. Mas só o efeito psicológico dessas terças-feiras tem feito uma baita diferença. Ao fim da maratona preparo uma pauta imaginária (que geralmente não dá lá muito certo), respiro fundo, e encaro a sessão.

Saio de lá com mais tarefas — de ordem prática, espiritual, ou reflexiva, escolha a que quiser—, que prometo cumprir com rigorosidade espartana, mas no fundo já sei que, na pior das hipóteses, sempre teremos as terças-feiras.

A tarefa da última semana era escrever um texto. Matei agora, às seis da tarde, dois itens da minha lista: texto terapia e primeira crônica do ano. Resolvo mais algumas coisinhas, vou para a sessão e em seguida ingresso, quase sem culpa, num resto de semana de procrastinação. Terça recomeço. 

Arroz com passas

Por Vanessa Henriques

O Natal sempre foi o palco de brigas familiares (e hoje em dia, também nas redes sociais) motivadas por um motivo pequeno, redondo e controverso: a uva passa. No arroz ou no panetone, há quem celebre este mês em que se resolve colocar passas em tudo e quem se descabele diante de tamanha desfaçatez.

Antes que me perguntem, sempre fui contra as passas, o que lá em casa era uma batalha perdida. Família de cinco integrantes não tem empate, e meus pais e minha irmã mais velha sempre se uniram em favor das ignóbeis frutinhas. Restavam eu e minha outra irmã emburradas, no canto, pedindo clemência à minha mãe pela salvação do arroz. Nunca funcionou.

O panetone também sempre foi um drama. Às inocentes frutas cristalizadas, resolveram adicionar as temidas uvas. E lá se formavam montanhas de passas no canto do prato a cada fatia degustada — que ao final minha mãe juntava com uma mão e comia com gosto, para nosso desespero.

O bom das uvas passas é que elas somem durante os outros onze meses do ano. Tirando uma ou outra incursão numa granola ou num mix de castanhas, elas nos dão a chance de esquecer delas no resto do ano.

E eu realmente esqueci as uvas passas. Aos poucos, fui me acostumando com essas breves aparições no meio do ano. E no panetone, bom, já me dava uma preguiça de tirar uma por uma (pode reparar: tem muito mais uva passa que fruta cristalizada em toda fatia). Tirava uma maior, comia as menores.

Até que me dei conta de que as passas já não me incomodavam mais do que o trabalho de retirá-las. Sem demora, minha irmã chegou à mesma conclusão: me enviou uma mensagem há alguns dias dizendo que havia almoçado uma salada com passas e que nem tinha percebido. Disse que era o prenúncio da vida adulta.

É verdade que entre a infância e a maturidade muitas questões de vida ou morte deixam de fazer sentido. As passas até que duraram um bom tempo, admito (meus pais que o digam!). Juro que queria me importar ainda com as passas e escrever um texto enumerando os seus defeitos. Tarde demais, eu permiti que elas entrassem na minha vida para ficar, doze meses por ano. Posso ter falhado na minha missão, mas admito que ficou bem mais prático. De dificuldade, já basta a vida adulta.

Beleza põe mesa

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Por Vanessa Henriques

Ano vai, ano vem, então é Natal e o que você fez? Aposto que, ao menos uma vez na vida, você apelou para o truque do presente de beleza. É um ótimo coringa, você entra na loja, cheira um creme aqui, prova um batom ali, garante que tem selo de troca e sai feliz da vida por resolver mais alguns presentes da sua lista.

Eu já fiz isso inúmeras vezes, até hoje continuo fazendo. Só que agora está um pouco mais complicado. Primeiro porque há uma infinidade de marcas, e em cada loja uma infinidade de produtos, cores e cheiros. Se por um lado é uma delícia passear por tantas opções, por outro você vai se ver em meio a dilemas cromáticos jamais imaginados (“dei um vermelho-coral ou um vermelho-alaranjado ano passado?”).

O segundo problema tem a ver com essa era da pós-verdade (ou hiper-verdade?) da indústria da beleza. Antes de sair às compras é mister saber não só as preferências do destinatário do presente como também toda a sua filosofia de beleza: faz low-poo? No-poo? Usa produtos testados em animais? Só usa marcas importadas? Prefere ingredientes naturais?

E a última questão, não menos importante e também inerente a todos os presentes, é o custo-benefício. Um batom, um lápis, um perfume de bolsa, alguns sabonetes, são os exemplos clássicos de ‘lembrancinhas’ de lojas de produtos de beleza. Não vai ter aqueeela presença, mas marca a ocasião, resolve o assunto, e a amizade sempre continua.

Se você entrou em uma dessas lojas nos últimos meses, vai ver que o que antes era uma lembrancinha hoje tem preço de presentão (e, infelizmente, a mesma presença de lembrancinha). O que antes era um presente atencioso, mas sem compromisso, hoje é uma declaração de amor.

Tudo isso para dizer que eu fiz compras de belê esse fim de ano. Só que agora para quem eu gosto muito, conheço bem o gosto e a filosofia belezística, e que sei que é a cara daquele presente. Se por um lado perdemos em praticidade, hoje esses presentes são mais atenciosos, e refletem as boas conversas sobre beleza que tivemos ao longo do ano.

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Vou descansar a minha beleza em janeiro e volto com mais histórias em fevereiro!