Jejuando no monte

Por Vanessa Henriques

As eleições sempre têm o poder de nos apresentar figuras, digamos, peculiares. A bola da vez tinha tudo para ser o enlouquecido Cabo Daciolo, com 1% nas pesquisas de intenção de voto mas “100% com Deus”. O ex-bombeiro militar só não bombou mais porque está, há dias, jejuando no Monte das Oliveiras, em Campo Grande (RJ), pela sua campanha, pela saúde de Bolsonaro e contra o domínio dos Illuminati e dos comunistas.

Nessa, o cabo saiu de cena, e nos poupou de alguns constrangimentos e gargalhadas. (Fica aí a dica para vários candidatos) E já que estamos todos fora do normal, já engato uma frase que nunca pensei que escreveria: eu concordo com o Cabo Daciolo.

Não que eu acredite em Plano Cohen ou coisa parecida, mas eu também ando querendo me desligar de tudo. Passei as últimas semanas lendo e discutindo eleições com amigos e colegas, e cheguei à conclusão de que, além do voto, não há nada mais que eu possa fazer. Não importa quantos links de textos maravilhosos eu leia ou compartilhe, quantas piadinhas com o nome do coiso eu faça ou quantos debates eu assista.

A minha saúde mental vale (ou deveria valer) mais do que isso. Entrei neste liquidificador da notícia em tempo real, das pesquisas semanais e dos memes diários, e o resultado não foi lá muito tragável. Os dias estão cinzas: por causa das chuvas da primavera, que já vem vindo, e por causa das conversas, que vão sempre por caminhos desagradáveis.

Eu queria ter uma palavra de esperança, uma ponta de alegria, mas tudo está convergindo para este buraco negro. Os planos estão paralisados, há meses, à espera de uma definição. Eu queria dizer que vi uma flor furar o asfalto, mas eu não vi. Como disse uma sábia amiga: a situação está tão complicada que não dá nem para correr para as montanhas, porque corre-se o sério risco de encontrar o Cabo Daciolo por lá!!

Subir o monte e buscar um pouco de paz, de silêncio, não é pecado. Mas não quero que pareça alienado da minha parte querer abandonar o barco quando a água já tá entrando pelo casco e o capitão é, veja bem, meio fascista. Só queria dizer que estou atingindo um tipo de limite. O limite de discussão e de sofrência, no melhor estilo sertanejo da palavra.

O problema é que o nosso votinho, tão único, parece pequeno demais diante dos grandes-destinos-do-país-e-da-humanidade. Ele não é, mas a avalanche de notícias e conjecturas nos dá essa impressão. Jornal deveria vir com alerta do Ministério da Saúde: a leitura diária pode provocar paranoia, desesperança e solidão. Em caso de suspeitas, pare de ler.

O nosso futuro nunca está somente nas nossas mãos. Depende de milhões de fatores e de um contexto que muda a todo instante. Só que se eu vou mudando junto, o que sobra de mim? Se não acredito em salvadores, preciso começar a construir meu bote salva-vidas. Ele pode ter o formato de jejum no monte, de viagem, de soneca pós-almoço, de ida ao supermercado sem celular, de boiar no mar ou de jogar paciência no computador. Portanto que flutue.

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Entre seda e cropped

Por Vanessa Henriques

Este ano faço 30 anos. Longe de começar aqui a desfiar o rosário esperado das balzaquianas, com direito a choros, frustrações e saídas hollywoodianas para beber até cair. Mas também não vou ser hipócrita e dizer que não há nenhuma reflexão na minha cabeça neste momento, que esta seria apenas uma primavera como todas as outras. Não cola.

Comecemos por um tópico mais leve. Atingir os 30 (e mesmo antes disso) implica em uma dificuldade prática de comprar roupas. Você se vê ali na loja de departamento espremida entre a parte de “jovens” — roupas coloridas, blusas cropped (que mostram a barriga), vestidos curtos — e a de “mães de escritório” —  camisas de seda, saias em ‘A’, casaquinhos de lã. Mas você não se identifica com nenhuma das duas coisas…

Aí começa a diversão. Para quem vê o copo meio cheio, você pode pular entre os dois galhos e escolher, antropofagicamente, aquilo que lhe agrada, descartando o que não dá mais (ou não dá ainda). Para os mais pessimistas, isso significa estar sempre fora do que é estabelecido e esperado para sua idade.

Agora embarcamos nas discussões mais profundas. Eu tenho uma mania, obsessão alguns diriam, de pensar sobre isso. Gasto mais tempo do que deveria fazendo conjecturas, projetando um futuro distante, sofrendo com o presente imediato, culpando o passado pelos sufocos. É um exercício que me acompanhou nestas quase três décadas e que não tem dado mostras de que vai sumir nos próximos anos.

Nesta toada, acabo levando amigos para as mesmas discussões, que geralmente levam a conclusões parecidas. “O trabalho está ruim, os chefes são limitados, o salário não é aquela coisa”. Eu sei. “Aquele projeto de mestrado tá na gaveta, pensei em virar youtuber, desisti, resolvi começar uma horta”. Eu também. “Quero ter filhos, mas não agora, mas também não muito depois, entende?” Entendo. “Não aguento mais a pressão para fazer algo incrível, extraordinário, quando na verdade eu não sou tudo isso que eu pensava.” Ô se sei.

Há muitas reflexões a se fazer e, sem cuidado, podemos ficar soterrados nelas sem conseguir partir para a ação. Aliás, precisa ter ação? Uma amiga comentou outro dia, em meio a uma série de emails desencontrados sobre projetos começados, largados e imaginados: “Será que a gente tem sempre que fazer coisas? Não se pode ter uma existência normal no mundo?”.

Lógico que ninguém precisa fazer nada. Mas também não sei mais dizer o que seria a existência “normal” dos balzaquianos. Estabilidade no emprego, bater ponto, viajar uma vez por ano, casa e consórcio de carro, tudo isso ficou para trás. Trabalhar com o que gosta, de casa, se render ao trabalho 24 horas e à instabilidade, sem convênio, sem SUS. Também não era para ser por aí.

Então vamos tentando o caminho do meio: checamos os emails do trabalho no celular, mas não sempre, ainda queremos carteira assinada, casa própria já desistimos, viagens são necessárias e devem ser publicizadas nas redes sociais, estamos cansados, não aprendemos a ser adultos, ninguém disse que seria tão difícil (mas será que era fácil antes?). Difícil conjugar a imagem dos nossos pais aos 30 anos com o que estamos vivendo na prática. As peças desse quebra-cabeça estão por todos os lados da sala, algumas embaixo do sofá e outras na barriga do cachorro. Não vai encaixar.

Por muito tempo achei que o que estamos vivendo é excepcional — e de alguma forma, é mesmo. Geração entre o analógico e o digital, já fomos promessa, hoje já somos uma pecinha incômoda no caminho dos verdadeiros precursores, que já vêm vindo, quebrando indústrias e criando novas necessidades.

Mas será que há algo de tão especial conosco? Ou isso também foi um grande mal entendido? Outras gerações já foram massacradas por nós antes. É só a nossa vez. Vida adulta é um saco, e a gente sabia, sim, só evitamos ao máximo pensar nela, até que não teve mais jeito. Não somos melhores que nossos pais, como quisemos (queremos?) acreditar. Só somos subsequentes.

Queremos demais? Mas deveríamos querer de menos? A resposta nunca será absoluta. Não dá mais para pensar de forma binária, mas sofremos para achar uma categoria que nos caiba em meio a tanta fragmentação.

O que espero para os trinta é que eu consiga andar pelos caminhos como quem anda por uma loja de roupas, à procura do que me agrada, independentemente da categoria que pertença. A maturidade, ainda bem, já está na sacola.

Refúgio na semana

Por Vanessa Henriques

Tive uma grata surpresa nas últimas semanas. Um colega veio me oferecer, de troça, um exemplar do novo livro de crônicas da Miriam Leitão, Refúgio no sábado. Sim, ela mesma, a jornalista, sempre na TV falando de economia, queria (e conseguiu) ser cronista.

Para surpresa dele e de outros que me questionaram, aceitei o desafio. Não tenho nada contra Miriam, mas também não acompanho suas análises. Sabia do seu passado com a ditadura. Nada muito além.

Em duas semanas, descobri que Miriam é mineira, mas foi para Vitória para ser cronista. Antes, virou jornalista, e tem mil histórias para contar, na ditadura e na democracia. Que ela tem uma reserva reflorestada de onde avista e lista passarinhos e outros animais. Que ela gosta do Drummond. E que, aos sábados, ela escreve crônicas.

Eu, muito diferente da Miriam, quase não me lembro de ter escrito aos sábados. Como ela mesmo diz, sábados são a transição entre a semana que foi e a que virá, e têm esse clima de proveito máximo. Costumo acordar já pensando na programação do dia, onde irei, o que precisa ser feito na casa, quem vou encontrar.

Sábado é dia de botar em prática o que a semana não permitiu. Um corte de cabelo, a limpeza da casa, passar roupa, a organização do escritório, visitar a avó. Vislumbro neste dia o que gostaria de ter durante a semana: mais tempo para mim e para quem eu amo. Menos metrô lotado, menos cansaço de fim de dia, mais disposição para cumprir estas outras tarefas, que são necessárias mas também não são de todo ruim.

E o dia de descanso? Bem… fica para o domingo. Que também é dia de fazer o que não deu tempo na semana e no sábado. Dia de feira. Dia de missa. Os dias estão completamente lotados. Pouco tempo para não fazer nada. Muita culpa para não fazer nada.

Onde vão se esconder as crônicas, então? É preciso uma mente relativamente vazia para arquitetá-las. É preciso essa paz dos sábados da Miriam Leitão, de frente para os passarinhos, com o cansaço da semana mas a certeza do descanso dali em diante.

Na falta desse cenário, elas se espreitam no ônibus, numa conversa rápida de WhatsApp, na troca de emails durante o expediente, no trajeto de todo dia, que sempre tem algo diferente. Vão sendo gestadas a conta-gotas, no pouco de tempo que resta para devaneios. E são escritas também na pressa. Mas são escritas.

Quando crescer, quero ser cronista com a calma da Miriam Leitão. Enquanto não cresço, me viro do meu jeito, e admiro quem já chegou lá.

Prova de fogo

Por Vanessa Henriques

A vida é feita de certezas, mesmo quando não queremos enxergar. E toda nossa existência caminha apenas para aquele momento em que nós pagamos para ver e, olha só, confirmamos aquela certeza.

Começo teorizando, mas a certeza a que me refiro é bastante pedestre. Eu tinha certeza que não valia a pena pagar para comer fondue fora de casa. Desde que esta “iguaria” virou moda (anos 2000?), não me conformava com o preço cobrado pelo quitute fora dos limites da cozinha doméstica.

Uma panela de queijo industrializado, uns pães amolecidos, umas frutinhas e um chocolate vagabundo? R$100 por pessoa. Tudo, claro, num clima intimista da montanha, telhado estilo europeu, pele de carneiro fake para se cobrir. Num frio de, sei lá, 15ºC, que é o pico do inverno em São Paulo.

Fui driblando os convites públicos e me rendi aos fondues familiares, que tinham a vantagem de ser menos afrescalhados e com produtos de melhor qualidade. Fizemos eu e meu marido versões antológicas, como o fondue na beira do fogão, com o auxílio de garfos e estrelando uma mexerica que estava estragando na fruteira. Um luxo.

Até que chega um ponto que a vida te coloca cara a cara com a sua certeza. Vai ser ruim, vai ser caro demais, e você vai se arrepender, mas quando você se dá conta, está com seu nome na fila de espera de um badalado restaurante de fondue em Campos de Jordão. Por motivo de força maior, claro.

Era uma comemoração familiar da qual eu não podia me furtar, e havia sido uma vontade da aniversariante. Paciência, vamos lá. Pedimos um rodízio de fondue — que incluía fondue de carne, de queijo e de chocolate — para cada. Rachamos uma garrafa de vinho que nos custou menos do que se todos os comensais tomasse um suco de laranja. Tire suas conclusões.

A dúvida já me assombrou no pedido. O garçom perguntou se queríamos uma panela de óleo ou uma chapa para o fondue de carne. Eu responderia que não queria nenhum dos itens, obrigada, mas os mais experientes da mesa pediram um exemplar de cada.

Alguns minutos depois ele surge com bandejas e mais bandejas de carne crua, uma chapa ardendo e uma panelinha de óleo com um rechaud embaixo. Observei o protocolo, e percebi que estava pagando oitenta reais para fritar a minha própria carne com roupas de sair, em meio à fumaceira geral do salão.

Eu, que torço o nariz para quem pede picanha no rechaud (que já tá pronta, veja bem!) em barzinho lotado. Eu, que vou em churrasco e encho a pança de pão antes da carne começar a sair. Eu, que não queria lavar o cabelo. E, principalmente, eu, que vou ao restaurante para não ter que cozinhar.

Um pouco abalada, tive que escolher uma das opções. Fritei uma linguiça no óleo. Ela saiu encharcada, desenxabida, meio encolhida pela violência do preparo. Mandei para dentro, resignada.

Tentei a chapa. Coloquei um pedaço de carne, esperei. Fui virar. Grudou. O garçom, notando minha falta de desenvoltura, aconselhou que eu esperasse uns minutos, senão grudaria mesmo. Esperei, virei. O resultado foi tão ruim quanto os bifes que tento fritar em casa: engordurados, fora do ponto, e sem sal. Sim, você tem que lembrar também do tempero nesta grande cozinha que virou este jantar. Pena ter esquecido meu avental.

Você pode dizer: carne é caro. É mesmo. Mas o desgosto foi tanto que não comi nem 150 gramas naquela noite. Já tive desempenho melhor num restaurante por quilo. Queijo, imagina, pela hora da morte. Também não é para tanto, já que aquela pasta mais lembrava um preparado UHT de qualquer coisa.

Ao menos deu para fechar num terreno conhecido: chocolate, uma panela quente, frutinhas, marshmallow. E a certeza (de novo ela) de que a conta não seria compatível com a experiência.

Eu quis compartilhar este relato na esperança de ser lida por boas almas que, como eu, não gostam de pagar para cozinhar fora de casa. Ou talvez de restauranteurs que se toquem do grande mico que é colocar seu cliente nesta roubada, e ainda vender como uma experiência invernal incrível.

E, claro, para provar que eu tinha certeza que era uma furada. Que venha a próxima provação. Deixarei meu avental separado.

Deixando pegadas

Por Vanessa Henriques

Gosto de fazer trilhas. É uma paixão que descobri desde que comecei a namorar meu marido. No começo eu tinha receio, me embrenhar no mato, toda estabanada, meninona de apartamento, coisa boa não podia sair. Hoje sou só amores e coleciono histórias e trilhas preferidas.

Claro que não saio por aí de facão na mão e perneira abrindo caminhos. Costumo visitar parque estabelecidos, trilhas fáceis e médias, com ou sem guia. Já fiz trilhas memoráveis por bons e maus motivos. Mas algumas coisas são constantes: o ar puro e fresquinho, o deslumbre com a beleza da floresta — geralmente do pouco que nos resta da rica Mata Atlântica — e as botas sujas de terra.

Botas essas que já estão nos seus últimos passos. Foi por causa dela que comecei a pensar nesse texto. Comprei a minha deve fazer uns 7 anos, quando percebi que não era uma boa ideia sair pelo mato com tênis de corrida. Na primeira usada pisei numa poçona de lama — o que poderia ser um charme, afinal ela foi feita para isso e não entrou nada na minha meia. Mas a verdade é que segui por um lado da trilha enquanto todo mundo foi pelo outro, e chafurdei literalmente.

Depois da bota fui ficando mais paramentada: roupa comprida (é sempre a recomendação), meia longa, boné (odeio e sempre esqueço, mas também é bom), uma pochete (sim) extremamente útil, mochilinha de ataque. Acho que é isso.

Logo, quem me vê por aí só pode achar que sou uma trilheira raiz, descolada, fazedora de raftings e escaladas, saltadora de parapente, telespectadora do Discovery Channel. Curto a fama, mas ela não podia ser mais falsa. Não só pela minha parca experiência, mas justamente por causa dos EPIs que utilizo.

Nada mais raiz do que fazer trilha descalço, de chinelo havaiana, de crocs, de tênis liso de corrida, de all star branco, de calça jeans, de vestido, e até mesmo carregando uma bolsa de palha com um sousplat dentro (tenho testemunhas). Todas situações reais.

Isso é coisa de quem se joga no rolê sem saber bem o que vai acontecer e vai com tudo, não tá nem aí para as consequências. Que escolhe a roupa pelo humor, e não pelo programa. Quem consegue curtir o passeio apesar das péssimas condições em que se encontra. Eu sou muito nutella, não faria nada disso.

Mas devo confessar que um dia já fui mais raiz. Fui com meu marido a uma trilha desconhecida, que envolvia basicamente subir um morro, no melhor espírito ousadia e alegria. Todos diziam que lá não tinha banheiro nem água, era bom levar alimento e alguma bebida.

O que os dois malandros fizeram? Botaram um (repito, um) polenguinho e uma (repito, uma) garrafa de água na bolsa, eu de shortinho jeans e blusinha de algodão, ele de bermudão caqui e uma blusa de corrida (mandou bem) e fomos lá subir por 1 hora um morro interminável debaixo de sol. Ao menos fui com a bota.

Chegamos mortos de cansaço ao topo, suados, com fome, com sede, e sabíamos que ainda tinha a descida. Mas lá do alto, que vista. Dava para admirar todos os mares de morros possíveis e ainda espiar o litoral, para onde iríamos em seguida. Tudo tinha valido a pena.

Para desfrutar comendo um polenguinho! (Foto Vanessa Henriques)

Descemos (o que eu acho mais difícil que subir) e saímos desesperados por um gole de água. Paramos no primeiro restaurante. Só aceitava dinheiro. Compramos o que deu: duas garrafas de água e uma salada caprese. E desde então, ficamos cada vez mais nutella.

O detalhe é que já subimos este morro outras duas vezes. Talvez minhas raízes não estejam totalmente mortas.

Vi passarinho verde

Por Vanessa Henriques

Hoje fui surpreendida por um novo amigo. Fui tomar o meu café da manhã e, como de praxe, cortei um restinho do meu mamão para colocar no nosso comedouro — que é, sem rodeios, um prato de planta amarrado com um arame (pois antes era fita crepe e, obviamente, eles voavam) onde deixamos frutas para os passarinhos.

Lá da cozinha, ouvi um barulhinho diferente. Era um periquito-rico (que eu, como todo mundo, chamo de maritaca) bem à vontade, com um naco de mamão na boca e resmungando alguma coisa, como fazem os psitacídeos. Quando notou a minha presença, toda torta no sofá tentando focar a câmera horrível do celular, saiu voando.

No começo, os passarinhos não gostavam de tanto improviso. Veja bem, as condições eram ruins, a fita crepe vivia desgrudando, as frutas ficavam pretas (já que ninguém as comia) e se chovia ou ventava, corria-se o risco de sair voando com prato e tudo.

Demoraram para aparecer os primeiros penosos, curiosos e famintos. Mas eles apareceram. Um a um, fomos colecionando visitantes. Os cambacicas, pequeninos e abusados, tomando água de cabeça para baixo. Os sanhaços cinzentos, que sempre vêm em pares, para vigiar. Os sanhaços do coqueiro, maiores e falastrões, espantando que tivesse por ali. Os estalinhos dos beija-flores. O canto manjado do sabiá. A curiosidade e o piado forte, que sempre me assusta, do bem-te-vi.

Os periquitos, no entanto, nunca tinham se aventurado por ali. Há no meu prédio uma série de coqueiros plantados no jardim, e nós nos contentávamos em vê-los lá de cima, beliscando frutinhas e matraqueando. Eis que um descobriu o que as outras espécies já estão cansadas de saber: sempre tem um mamão, uma bananinha, às vezes outra fruta (que eles ignoram, os ingratos), geralmente de manhã, quando essa moça grande e estabanada do celular fica tentando te fotografar, ou de tarde, quando um barbudo fica imóvel no sofá tentando te espiar com um guia de aves na mão.

oi! (Foto: Vanessa Henriques)

Me divirto pensando em como eles encontram esse pratinho, na ponta de uma varanda no mar de prédio e de árvores desta vila. Pelo cheiro? Pela cor? Observando os outros penosos que param por ali?

E, depois de encontrado, o que fazer? Voltar sorrateiro, para ninguém perceber, e garantir o sua rodelinha de banana? Ou contar para a galera, trazer a passarada toda, fazer algazarra, e entrar de vez na lista de parasitas da nossa fruteira? São grandes reflexões para um corpo tão pequeno e tão pouca fruta.

Dá uma trabalheira manter os visitantes contentes. Quando eles ficam mais à vontade, não se envergonham de deixar seus cocôs de frutinha e sementes pela varanda. Nem de piar alto quando não tem nada para comer. Sem contar as brigas entre eles.

Mas é um charme tremendo dizer que acordou, em plena São Paulo, com o barulho dos penosos na janela. E vale a pena, para ficar em dias como esse, como quem vê passarinho verde.

 

Do que não falei, do que esqueci, do que perdi

Por Vanessa Henriques

Vocês devem ter percebido (digam que perceberam!!) que tenho tentado voltar ao ritmo de escrita desde que postei aquele vídeo do aniversário do blog. Este texto era para ter vindo logo na sequência, ou até antes, mas acabei me embolando sozinha com compromissos pré-férias e viagens. Eis que ele veio.

Todo mês de junho tem tom de dilema. Sempre lembro, lá pro meio do mês, que o blog completa X anos e meu deeeus eu preciso fazer algo sobre isso. Ou não preciso? – afinal, não posto faz meses. Ainda faz sentido manter o blog? Virou só obrigação (e, ainda por cima, obrigação não cumprida)?

Os anos passam e a dúvida continua. Embalada por algumas conversas da terapia, decidi dar mais uma chance para esse blog surrado. Entrei no painel do wordpress e comecei a reler comentários. Tinha bastante coisa boa ali: confissões profundas e engraçadas, pedidos por mais textos, ranking de identificação…

Tinham comentários emocionados sobre textos que eu nem lembrava de ter escrito. [Mari Kondo que me perdoe, mas avancei pro estágio proibido e comecei a ler os textos antigos no meio desse processo de quase-arrumação de casa.] Tinha coisa boa ali, agradável, que eu gostei de reler.

E quanto mais eu fuçava, menos motivos sobravam para deixar de postar aqui. Deu uma saudade de mim, de outros tempos de vida que eu já tinha me esquecido que existiram. Eu escrevia bonito. Eu escrevia poesia. Eu escrevia quase toda semana. Quanta coisa mudou.

Ninguém sabe apontar o momento certo que, opa, tudo mudou. É impossível. Mas sempre restam pistas. Durante esses seis anos de Croniquices, eu passei por quatro empregos, mudei de casa, viajei muito, fiz novos amigos, perdi alguns. Vivi também experiências que me fizeram questionar a minha escrita, algo que compartilhei com poucas pessoas.

No início de 2016 fui aceita no Clipe (curso de escrita de literária oferecido pela Casa das Rosas) e passei no trainee da Folha. Parecia que agora tudo ia deslanchar com relação à escrita, certo? Mas a verdade é que tudo isso me colocou numa baita insegurança.

No curso, eu não tinha uma escrita profunda, atropelada, cheia de metáforas, miniconto ou o quer que seja. Não tinha lido os clássicos e nem conhecia as promessas. Na Folha, eu não tinha o tino de repórter, o texto seco, desidratado de conjunções e de clichês. E eu não sabia o que eu tinha, pra melhorar a situação. Ao invés de aproveitar o que aprendi e me aprimorar, acabei ficando vazia depois dessas experiências. A canoa virou.

E escrever ficou cada vez mais difícil. Estava assombrada pela concorrência, desestimulada, perdida. Nem me dava mais ao trabalho de inserir um “escrever crônica” na minha lista semanal. Quando a inspiração vinha, eu batia um texto sem vontade e publicava, para cobrir os buracos de meses sem publicação.

Eis que depois de tudo isso, eu leio um texto lindo sobre a chuva:

[a chuva] só queria cair do céu, aliviada depois de um dia abafado, penetrar na terra, quem sabe ir parar num lençol. Nós atrapalhamos também o caminho dela, mas ela não se vinga de nós. Continua caindo, incólume, sob nossas cabeças.

As andorinhas, ao contrário, dançam e brincam, recepcionando a chuva que decidiu cair impiedosa. Molham as penas sem dó, sem pensar no estrago do dia seguinte. Enquanto há chuva, há motivos para furá-la com voos rasantes.

Gosto de pensar que a chuva, assim como nós, tem humor. (…) Somos impermeáveis à água, mas permeáveis às sensações. Qual o humor da chuva de hoje?

Fui eu que escrevi isso, lá nos idos de 2013. Nos últimos anos, não fui capaz de escrever nada nesta linha. Porque eu esqueci da chuva, perdi a habilidade de olhar para ela e acho tudo que foi escrito sobre a chuva é melhor do que eu possa fazer. Cronista impermeável não serve de nada.

E agora, o que resta? A lembrança de tempos melhores e um objetivo. Voltar para trás para ir em frente. Mais um ano para continuar tentando. Falemos em junho.

Enquanto há chuva, há motivos para furá-la com voos rasantes (Foto: Carlos Oliveira)