Tigela é tudo de bowl

Por Vanessa Henriques

Promoção: bowl a R$39,99, dizia o anúncio indesejado num despretensioso rolar de dedos no Instagram. Nas lojas: bowls. No programa de receita: bowls. No armário: bowls.

Todo dia é um 7×1 diferente, diria Sérgio Rodrigues. Antonio Prata diria que não é sobre o utensílio em si, é sobre a reflexão. E eu que não sou lá tão famosa e versada na arte das letras tenho, infelizmente, mais uma contribuição a fazer neste debate sobre expressões roubadas da gringa.

Vasilha, recipiente, cumbuca — e toda uma infinidade de combinações graciosas com o diminutivo tão característico do nosso português (potinho, tigelinha) — me vêm à cabeça. Parece um crime achar que uma palavra com uma improvável combinação de ‘w’ e ‘l’ poderia colar nesse português cheio de vogais. Colou. O bowl é fato consumado.

Devo dar o braço a torcer que eles foram espertos nessa escolha. Pode-se falar ‘bou’ e passar sem constrangimentos pelo termo em inglês. O delivery, muito mais espinhoso, demorou mas colou. Imagina se essa quase onomatopeia não iria conseguir?

Tudo começa com uma mudança de mentalidade — ou mindset, pra você que é proprietário de um bowl na sua american kitchen. Por anos, a referência culinária do brasileiro foi o livro da dona Benta e uma infinidade de programas vespertinos com alguma culinarista atrás de um balcão. De preferência, a Palmirinha.

Eis que o país foi invadido por uma enxurrada de reality shows culinários: o melhor confeiteiro, o melhor chef, o melhor cozinheiro amador, o melhor churrasqueiro, a melhor criança cozinheira e uma infinidade de variações. Ao invés da bancada antiquada e um boneco de espuma, vemos bancadas em aço inox, gôndolas high-tech, geladeiras que gelam rápido, fornos estupidamente quentes e até nitrogênio líquido.

Estava preparado o terreno para o bowl. Não há espaço para uma tigela numa cozinha com essa sofisticação. E, logo, não haveria espaço também na sua casa. Ou na casa da sua mãe. Ou nas lojas Americanas. Ou no mercadinho da esquina.

O bowl não nasceu de uma tradução ruim ou caracteriza um utensílio jamais visto nos lares brasileiros, que precisaria ser nomeado desta forma. Ele é só uma moda de meia tigela.

Anúncios

Sereísmo no Tietê

Por Vanessa Henriques

Ando preocupada com a cidade de São Paulo. Terra de bandeirantes, tropeiros e hipsters, tem sua história ligada ao novo — com a mesma disposição para o progresso e para o provincianismo. Quem mora ou circula por aqui rapidamente percebe a inclinação da cidade para modismos passageiros, que nos arrebatam por meses, até que caem no ridículo ou no esquecimento.

No princípio, havia o cupcake. Depois o brigadeiro gourmet (e a inevitável brigaderia). Depois veio a onda latina, com a paleta mexicana e as churrerias com churros banhados a ouro (a julgar pelo preço). Os cafés descolados com móveis de madeira crua e suculentas em xícaras. A doçaria portuguesa de grife, que cobra por um doce o preço de 10 pasteis de nata vendidos no pitoresco Habib´s. Os food trucks estacionados em food parks. As hamburguerias com toque vintage. E, pra sair do campo da comida, as barbearias retrô.

Todo estes estabelecimentos, de uma forma ou de outra, me parecem com os dias contados. Se você pensa em investir em uma paleteria em pleno 2018, você perdeu a cabeça. Mas o food truck não está tão diferente assim.

Minha preocupação vem do fato de que não há ainda uma nova moda despontando — ou, ao menos, ela escapa de minha sensibilidade. Circulei por bairros como Pinheiros e Vila Madalena, mais do mesmo. Av. Paulista? Só quer saber de museus e cafés, moda antiga. Centro? Restaurantes de imigrantes lotados de branquelos com guia de jornal na mão.

Na falta de uma novidade comercial visível, passei a observar o comportamento dos paulistanos. No carnaval, que agora agita as ruas apertadas do centro e os muros de samambaia da 23 de maio, ficou clara a preferência por algumas figuras míticas como sereias e unicórnios.

Eles tiveram a capacidade de influenciar o vestuário, as cores de cabelos e os hábitos praieiros, além da culinária multicolorida que invadiu brigaderias, cafeterias e churrerias. A influência foi tanta que alguns já bradavam pelo seu natural declínio, como sói ocorrer com toda moda paulistana. Ninguém quer apostar numa entidade caída.

Acho graça nessa aura mística, mas não deixo de pensar em suas contradições. Talvez seja uma espécie de compensação, afinal não faz sentido invocar a criatura chifruda multicolorida em meio ao cinza de São Paulo. E o Tristão paulistano, onde coloca sua cauda para trabalhar? Cogita praticar sereísmo no rio Tietê?

Aguardo ansiosamente qual será a próxima figura mítica a desembarcar no planalto de Piratininga. Minha torcida é por um ícone nacional, como o saci ou o curupira (mulas sem cabeça já vemos aos montes por aí). E se abrir uma coisaria nova, também estaremos atentos.

Sem lenço, com documento

Por Vanessa Henriques

“Primeiramente de tudo, uma boa tarde a todos!”. E assim começa mais uma viagem alucinante no metrô de São Paulo. Há comércio variado nesta terra de trabalhadores: amendoins (na validade!), fones de ouvido (testa na hora), lente olho de peixe (pra não cortar ninguém na selfie) e, não menos importante, os queridos porta-documentos.

Quando vi o primeiro ambulante oferecendo porta-documentos, dei uma risada comigo mesma. Quem estaria chacoalhando no metrô, 6 horas da matina, e pararia para pensar: “caramba, não tenho um plastiquinho para o meu título eleitoral!!”.

É claro que eu estava errada. O comércio popular não falha e tem tino para os desequilíbrios de oferta e demanda. Já faz alguns meses que vejo consumidores satisfeitos adquirindo porta-documentos e encerrando uma vida desregrada.

Este é um produto que se vende sozinho. Só de ouvir o vendedor listar todos os documentos que temos que carregar por aí, o marketing está feito: RGCPFCNHTÍTULODEELEITORCERTIFICADODERESERVISTA.

E o comércio, assim como o metrô, não fica parado (só às vezes), e já evoluiu: hoje em dia é possível encontrar no shopping metrô “carteiras de couro sintético, costuradas por dentro e por fora, e com plásticos para você colocar todos os seus documentos”.

É a praticidade do porta-documento com a necessidade da carteira. É puro street style. E quem chama com R$5 não leva uma, mas duas! Preciso dizer que faz sucesso?

Há anos o metrô faz campanha contra o comércio ambulante. Mas o paulistano já se apegou demais a ele para denunciá-lo. Ele preza pela nossa fome, nosso entretenimento e, ultimamente, pelo nosso pertencimento cívico.

Tanto que outro dia ouvi um autoproclamado marreteiro pedindo dinheiro no vagão após o fiscal confiscar sua mercadoria. As pessoas contribuíram, complacentes, aguardando o retorno do pai de família ao vagão com novos produtos.

O porta-documento tem a vantagem de ser facilmente escondido do “rapa”: é leve, discreto, e cabe no bolso — o que já é uma propaganda do produto. O sucesso de vendas é garantido.

Só tem um probleminha. A TV do metrô anunciava, em letras garrafais: “Brasil terá documento único eletrônico até julho de 2018”.

Tudo bem, se tudo der errado, sempre nos restarão os amendoins.

 

 

 

 

 

Debatendo-se

Por Vanessa Henriques

Casa cheia, coffee break no capricho, aglomeração no cafézinho. Crachá no pescoço, bloquinho e caneta na mão. Abrem as portas. Cada um escolhe o melhor lugar — do lado da saída, dos amigos, do ar condicionado. Um atrasinho regulamentar. Quinze minutos, talvez vinte.

O moderador vem galante, como pede a ocasião. Dá bons-dias, boas-tardes, a palavrinha dos patrocinadores, agradece aos palestrantes e os apresenta com uma leitura extensa de currículo invejável. Os espectadores se encolhem na cadeira diante de tanta experiência. E anuncia as regras do jogo:

— Gostaria de deixar claro, desde já, como será o funcionamento deste debate. Darei dez minutos para cada palestrante falar. Todos vão estourar pelo menos 5 minutinhos, então já são 15. Como são quatro integrantes da mesa, a próxima hora será deles.

O público presta atenção, resignado.

— Nesta primeira hora, cada debatedor vai fazer mesuras aos demais componentes da mesa. Vão fazer piadas como “o fulano já disse o que eu queria falar”, para disfarçar o desconforto. A grande verdade é que todos aqui se conhecem, já trabalharam juntos algum dia, e não teremos embates ideológicos marcantes. Estão todos do mesmo lado.

O público estranhou, cochichou, mas continuou atento.

— Aí eu vou incentivar que todos enviem suas perguntas, quanto mais perguntas, melhor, queremos um debate intenso, com vários pontos de vista. Mas a verdade é que só vai restar menos de meia hora para o debate em si. Vou me afundar em um mar de papeizinhos, fazer cara de preocupação, e pedirei mil desculpas à participativa plateia por este incômodo.

O público se mexeu na cadeira, uns com raiva, outros espantados, outros no celular.

— Os sortudos que tiverem suas perguntas contempladas vão ser obrigados a ouvir as respostas dos quatro integrantes da mesa que, como disse, não discordam entre si. Talvez aproveitem para inserir algum comentário sobre sua carreira atual, o livro que está lançando, o próximo debate na agenda.

O público desconfortável, se ajeitando no assento, surpreso e até um tanto ultrajado.

— Tudo isso não será um problema, pois até lá metade já estará no Facebook, um quarto terá marcado presença e ido embora e o restante aguardará ansioso o fim do debate para comer mais pãezinhos de queijo.

O público um pouco mais calmo, metade já no celular, outros planejando a fuga. Os debatedores se entreolhavam, com sorriso amarelo e bochechas rosadas, esquecendo a fala inicial praticada no banheiro.

Bem-humorado, o moderador declarou aberto o debate. Uma parte do público bateu palmas fervorosamente. O melhor debatedor já havia feito sua introdução — em menos de dez minutos.

De pé, cansa

Por Vanessa Henriques

Já começo este texto pedindo desculpas pela prolongada ausência e pela frivolidade do tópico. No entanto, acredito que ele possa tocar os corações de leitores com escoliose, lordose, pico de papagaio ou, simplesmente, um chefe.

Escrevo estas linhas do alto (nem tanto) de uma cadeira do escritório. Ela é como todas as cadeiras de escritório: desconfortável, com regulação insuficiente e design sofrível. Cuidadosamente escolhida para o tamanho da bancada, ela me obriga a escolher entre apoiar os cotovelos em seu braço ou ficar a uma distância razoável do teclado.

O agravante fica por conta dos meus 1,75m e uso de salto (pequeno!), que me obriga a ficar com as pernas na mesma posição o dia inteiro. Some-se a isso uma escoliose e a obrigação de ficar sentada por 8h em frente a este computador. Tudo bem, a culpa foi minha, quem mandou ser de humanas?

Eis que, virando o pescoço (de leve, pra não piorar o quadro), vejo a cadeira do chefe. É alta, imponente, encosto que cobre toda a superfície das costas, um luxo. Tem regulagem de altura decente para maiores de 1,65m. Revestimento acolchoado. Até a cor é diferente. Afinal, ele é o chefe, e se suas atitudes não mostrarem isso, tudo bem, afinal a cadeira se encarregará do resto.

É realmente patética esta separação. Uns dirão que os chefes trabalham mais horas (tenho colegas com média de 12 horas diárias que desmentem), que são mais velhos, que já esquentaram muita cadeira ruim. Ok. Mas será que para ser chefe (além de ser homem) precisa desenvolver lordose?

Há algumas semanas, enquanto procurava uma cadeira para a minha casa, logo fui atraída por um exemplar vistoso, alto, com encosto confortável — ou seja, a típica cadeira que nunca terei no trabalho. Na etiqueta, o nome: ‘cadeira diretor’. As que eu estava acostumada a sentar no trabalho eram as ‘cadeiras giratórias pretas’. Tinha a ‘cadeira presidente’ também, mas achei muito espalhafatosa.

Resignada, comprei a cadeira de diretor com meu salário de peão para disfrutar de alguns bons momentos em casa. E, de repente, fiquei muito motivada a disputar um cargo de chefia. Minha plataforma? Cadeira diretor para todos!

Alçada à chefia, poderia desfrutar de conforto ortopédico e algum prestígio, afinal ninguém senta numa cadeira dessas à toa, não é mesmo? Se meu plano falhar, abro um estúdio de pilates, afinal uma coisa é certa: não vai faltar patrão e peão estropeado no futuro próximo.

O telefone tocou novamente

Por Vanessa Henriques

Turururururu… Turururururu…

Um dia, foi no metrô. O barulhinho abafado só podia vir do celular jogado na mochila. Fiz uma manobra ousada no vagão cheio para descobrir que não era o meu celular, e sim de uma moça sentada logo ali.

Turururururu… Turururururu…

Esse dia foi na rua, já voltando para casa. Rua relativamente vazia, hora avançada, podia ser minha mãe perguntando se eu tinha sido sequestrada (ela recebe telefonemas semanais do tipo), melhor olhar. Manobra da mochila, vasculho o bolso, e o barulho para. Era do segurança do prédio.

Turururururu… Turururururu…

Aquela outra vez foi no ônibus, dia de chuva, encostada-quase-caindo na sanfona. Já calejada, deixei tocar, se esgoelar. Devia de ser o celular do ambulante, ou do cobrador, ou minha mãe retornando pro ladrão com o dinheiro do meu resgate. Parou.

Toda a trama cheira ao clássico Pedrinho e o Lobo: um dia realmente será o meu celular a chacoalhar no bolso, com uma irrecusável proposta de emprego, um prêmio de promoção de supermercado ou quem sabe uma herança esquecida. Deixarei passar sem dó, com a bênção da ignorância.

Mas o que me irrita não é o infortúnio da ligação perdida ou a cara de besta de perceber que ninguém te ama, ninguém te quer (a parte de comer barata é opcional). O que incomoda é pensar que nos tornamos seres que andam com as mesmas duas marcas de celular no bolso — e a Apple e a Samsung claramente não ligam muito para toques de celular.

Nem sempre foi assim: num passado não muito longínquo toque de celular bacana era aquele ritmado, com a música do momento na sua versão polifônica. O ringtone foi sucesso absoluto e coroava a modernidade junto com o flip, a tela colorida e o fim das antenas.

Operadoras ofereciam ringtones variados, saídos das paradas do rádio. Eu mesma me lembro de ter instalado um toque da música do Queen (it´s a kind of magiiiic) que me acompanhou por um bom tempo. Havia um problema, como em toda tecnologia de ponta: as músicas demoram muito para chegar a um ponto conhecido (geralmente o refrão), e muitas vezes ninguém reconhecia seu ringtone escolhido com tanto esforço.

Mas havia o mais importante: diversidade. Por mais que muita gente gostasse da Ivete Sangalo, teria toda uma discografia para escolher. Hoje todos ouvimos a mesma música da Ivete (e uma mais ou menos, não exatamente um hit).

Por ora, decidi fazer uma intoxicação forçada: deixo o celular no silencioso, assim não corro mais o risco de ser enganada. Criei um código com minha mãe para quando o sequestro for real. Prefiro um celular mudo a um sem personalidade nenhuma! — brado com meu Samsung Android com capinha do Mickey na mão.

Vizinhança atacada

Por Vanessa Henriques

Poucas coisas são tão adultas e tão deprimentes quanto se animar com inauguração de supermercado. Ainda assim, geralmente é um acontecimento que pára um bairro, não importa seu tamanho (e nem venha me dizer que na metrópole isso não acontece, pois tudo não passa de uma grande paróquia colada na outra).

O assunto me veio à cabeça quando percebi que iriam abrir dois supermercados no meu bairro. Na verdade só um estava abrindo, o outro tinha fechado para mudar de marca (mas não de dono). Ficava atenta às conversas no ônibus: “vai abrir logo”, “vai ser um atacadista”, “vão ampliar”. Ficou claro que a expectativa não era só minha.

E é também o tipo de coisa que não tem como dar certo, já que a muvuca é certa e a vantagem duvidosa. Carros de som anunciam ofertas extraordinárias, mas se esquecem de mencionar as singelas filas nos caixas cobertos por bexigas.

Lembro-me da inauguração de um grande Carrefour na minha cidade. Fomos todos (sim, os cinco: pai, mãe e três filhas) conhecer o moderno hipermercado, com vidro temperado na frente, esteira rolante, uma loucura para os padrões de Diadema.

Andamos pelos corredores, achamos algumas promoções, até que fomos enfrentar a fila. Lembro-me que no carrinho tinham duas pizzas da Sadia, que seriam nossa janta. E ficamos por horas naquela fila que não andava por causa de pizzas da Sadia. Não consigo pensar num desconto que tivesse valido a aventura.

Com meu marido foi pior: ele foi na inauguração de um mercado que havia mudado de bandeira, mas que ele frequentava desde a infância. Enquanto aguardava para comer uma fatia do enorme bolo na porta de entrada (sim, teve até bolo!), algumas pessoas passaram por ele e soltaram a pérola: “nossa, agora só vai dar playboyzinho que nem ele nesse mercado” — tudo isso porque ele estava de camiseta polo. Ao menos o bolo estava gostoso.

Na última semana saiu o veredito das inaugurações do bairro: um abriria na quarta, o outro na sexta. O espírito provinciano se animou, deixei uma listinha preparada e fiquei atenta na janela do ônibus para acompanhar os primeiros movimentos.

O da quarta era daqueles minimercados, abriu sem grande alarde. Já o da sexta, foi na versão atacado (e não é que virou atacadista mesmo?). O congestionamento era inacreditável. Ouvi boatos no ônibus que não estavam cobrando as sacolinhas, mas só nos 3 primeiros dias. Luxo total.

Não tive coragem de encarar a multidão nos primeiros dias. Programei a estreia para o domingo, depois da missa. Não devo ter sido a única. As orações eram cortadas pelas buzinas ensandecidas lá fora, de motoristas não muito felizes pela confusão no trânsito local.

O padre encerrou a missa recomendando que quem tivesse de carro rezasse um terço no caminho e tivesse muita paciência. Saí com o resto dos pedestres, muitos com sacolinhas debaixo do braço. E fomos em procissão rumo à boa nova.