Aquecida e repetitiva

Por Vanessa Henriques

Manhã fria, vó doente, e lá vai a neta levá-la no hospital. Saí cedo, de café tomado e olho meio aberto, colocando o primeiro casaco que encontrei. Vento frio na rua, ‘precisava de um cachecol’ pensei, já dobrando a esquina e sem chance de voltar para casa.

Lógico que a minha vó percebeu logo de cara que eu estava desagasalhada. Aliás, sempre estamos desagasalhadas ao olhar das mães, avós, bisas, etc. Às vezes é exagero, às vezes é verdade — neste caso, era verdade.

Ela sacou um cachecol mostarda do armário e intimou: “coloca que tá frio”. A cor chamou logo a atenção, mas eu estava com muito sono e frio para negar. Mas ficou a dúvida: por que diabos ela tricotou um cachecol dessa cor?

Na volta para casa, ela insistiu que eu ficasse com ele. Levei sem relutar, ainda que fizesse mais de 25ºC e eu não estivesse com frio nenhum. No dia seguinte fez mais frio ainda, e a nova intimação veio por telefone: leva o meu cachecol. Sabe como é praga de vó, melhor não contrariar…

Eis que o cachecol caiu nas minhas graças. Ele combinava com todas as minhas roupas (estranhamente tenho muitas roupas azuis, e mostarda combina com isso), e era de fato muito quentinho. Usei ele algumas vezes até devolver à dona, que só aceitou porque a temperatura já superava os 30ºC.

Já tinha percebido há algum tempo que eu já tenho pares pré-combinados de roupa: esta camisa com aquela calça; este sapato com este vestido; e até mesmo este batom com esta blusa. Podem até ser boas combinações, mas jamais as únicas.

Por comodidade, preguiça e talvez até falta de criatividade, percebi que usava sempre as mesmas combinações — e sei que não estou sozinha nessa. Por que será que é tão difícil sair do piloto automático? Estão faltando mais cachecóis mostarda nessa vida besta.

Inspirada pelo episódio, comecei a tricotar um cachecol para mim. Talvez já seja verão quando ficar pronto — se depender da minha boa vontade e habilidade. E a cor não é tão moderna assim. Sabe como é, vó, nem todo mundo é tão pra frente quanto você.

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Bem casados

Por Vanessa Henriques

 

Tudo vazio e dois pequenos.

Paredes cinzas

quanto espaço

quanto espelho.

 

Livro pra todo canto.

Armário: pra você só um tanto…

Mesa: toda sua, eu me arranjo.

 

A cozinha não dava conta de tanto mimo

de vó, de mãe, de irmãos, de amigos

Pano de prato ainda tem estoque

e tigela não tem mais onde bote!

 

Veio mesa, sofá, estante

e até o velho rádio com vitrola

aquela pedra que você roubou do Varvito

E debaixo da cadeira um pó meio esquisito

 

Um vaso de planta

dois

três

contei hoje: são 17 vasos

desconta os dois que já estavam no apartamento

e soma aqueles que vão vingar

(tipo aquele coqueiro que você insiste em dizer que não é um coqueiro)

 

Pássaros na cortina

e na varanda.

Dois pratos de comida que voaram com o vento

uma samambaia que se jogou ao relento.

 

Muitos santos

nesse templo.

Quantas velas será que acendemos neste tempo (nos bons e maus momentos)?

De falta de luz foram poucas

De alegria foram muitas

 

“Codo a codo somos mucho más que dos”

diz o poema que a gente adora.

Criamos um mundo em 50m²

E eu o amo com todas as forças.

 

Isso foi casa.

Comigo.

Diz que sim?

Pra chamar de seu

Por Vanessa Henriques

Quem acompanha blogs de beleza e moda conhece alguns chavões do meio, como os tutoriais, o polêmico “look do dia” ou a “lista de desejos do mês”. Nada contra, faz parte do jogo e ainda tiro boas inspirações disso tudo (apesar de sempre rolar aquela desconfiança: será que é publi?).

Mas um tipo especial de postagem sempre chamou minha atenção: o “usei até o fim”, que reúne, geralmente, os produtos queridinhos das nécessaires, que são usados rapidamente. Sempre me revoltou pensar que seja digno de nota que se usou um produto até o fim (antes da validade expirar, de preferência), quando me parece óbvio que produtos são para ser usados até o fim. Serão mesmo?

Essa semana percebi que meu batom preferido está chegando ao fim. Fim mesmo, não é metade da bala, não é que já está com formato esquisito e muito menos vencido. Está no fim por uso, diário praticamente. E eu não consigo me lembrar do último batom que chegou nesse ponto.

A coisa não parou por aí. Último lápis? Venceu antes de acabar, joguei fora. Último blush? Putz, mal uso, deve tá lá vencido no fundo do armário. Última base? Ganhei da minha irmã, acho que nunca usei. Última sombra? Tá vencida mesmo e eu uso, ninguém vai conseguir separar nosso amor!!!

Os blogs estão certos, quase nenhum produto é usado até o fim, e quando o são, devem ser alçados ao hall da fama. E se eles tão certos, nós devemos estar erradas, afinal consumimos maquiagem e produto de beleza de forma nem sempre muito racional, o que leva a um acúmulo de itens iguais (responda rápido, quantos batons nude você tem?), de itens não usados (aquele esmalte verde parecia uma ótima ideia…) e, na esmagadora maioria, itens vencidos.

Entre certos e errados, para mim o buraco é mais embaixo. A indústria lança um monte de coisa nova e legal todo mês, os blogs resenham e divulgam, e você lê, gosta, e já sentindo aquela vontade desesperada de mudar essa mesma cara de sempre, compra. É uma questão um pouco maior do que a nossa nécessaire.

Então achem o “usei até o fim” de vocês. Eu definitivamente achei o meu — uma pena que ele seja importado, que o dólar esteja caro e que eu não conheça ninguém com viagem marcada pros próximos meses. Ainda bem que eu tenho mais uns quatro batons nudes em casa.

É HEXA!

Queridos leitores,

Junho é mês de comemoração neste blog! Na marca do pênalti e em clima de Copa vem a comemoração do hexa, digo, dos 6 anos do Croniquices!

Resolvi atacar de youtuber por uma boa causa. É que eu achei que tava passando vergonha demais sozinha aqui e queria companhia 🙂

Graças aos seus comentários tenho muita munição para colocá-los em maus lençóis… ou, ao menos, um material para dar algumas risadas!

Sem mais enrolação, vamos ao prato principal:

Deixem seus comentários, por favor, pois estou curiosa para lê-los!

Obrigada pela companhia de sempre.

Abraço,

Vanessa

Peneira

Por Vanessa Henriques

Lá pelo segundo tempo de um Polônia e Nigéria, que eu acompanhava de orelhada, veio a constatação: a Copa é uma grande dinâmica de grupo. É triste chegar a essa conclusão, já eu que odeio com todas as minhas forças essa forma de t̶o̶r̶t̶u̶r̶a̶ seleção, mas adoro uma Copa.

Veja se você concorda comigo. Há, antes de mais nada, uma disputa prévia para entrar na lista de convocados. O currículo pesa muito nesta fase: como está seu rendimento, quais clubes jogou, como foi na última temporada. É preciso ter estilo: de jogo e de cabelo.

Passando dessa fase, você passa para a dinâmica em si, com pitadas de BBB: você passa a conviver com seus concorrentes. É obrigado a socializar com eles, manter o mínimo do diálogo, entrosamento. É também a hora de conhecer seus pontos fracos.

Pior, aí você percebe que ali, todo mundo fez intercâmbio: um joga em Barcelona, outro em Londres, outro em Paris. Você já começa a pegar ranço deles, mas não há o que fazer. É preciso ganhar no carisma, na habilidade, no quinto metatarso em pleno funcionamento. Se vira.

No fundo, todo mundo compete por uma vaga no topo. Uma exibição de gala, o reconhecimento de suas habilidades e, muito importante, um novo contrato quando tudo acabar.

Ainda não te convenci? Lembremos de algumas atividades que envolvem uma Copa.

É preciso mentir (“claaaaro eu tô ótimo daquela lesão”). É preciso fingir (“meu Deus chutaram minha canela mas doeu no pé acho que foi pênalti”). É preciso dar entrevista para Galvão Bueno e afins (“é a desmoralização do árbitro de vídeo mesmo, Galvão, cê tá certo”).

Talvez eu esteja influenciada pelo fuso horário russo, que bate exatamente com o expediente. Talvez eu esteja procurando desculpas prévias para o fracasso do hexa (“também, quem aguenta tanta dinâmica?”).

Por ora, vou acompanhando a seleção (entenda como quiser) com a tranquilidade de espectadora. Mas vou aproveitar para mandar uns currículos durante o intervalo. Quem sabe não uso algumas das técnicas aprendidas pela TV? Já aviso a concorrência que o espírito está meio cansado, mas o metatarso está tinindo

 

À procura dos gigas perdidos

Por Vanessa Henriques

Ultimamente tenho andado preocupada com meu tamanho – e não me refiro aqui à minha silhueta nem à minha altura (esta, não tem jeito). É o meu tamanho digital que anda dando dor de cabeça.

Estou sofrendo de falência múltipla de plataformas: atingi, de uma só vez, meu limite de espaço de armazenamento do celular, do e-mail e da nuvem. Dá para desconfiar de uma conspiração das grandes corporações, claro, mas eu também sou displicente no uso das minhas gavetas digitais.

O celular está mais fácil de resolver, creio eu. Basta apagar alguns memes (apaixonada pelo canarinho pistola, confesso) e fotos inúteis recebidas pelo celular – “olha, tô mandando uma foto da minha frieira!”. E não baixar mais aplicativos de jornais.

Os outros dois está mais complicado. Eu nunca criei o hábito de apagar meus e-mails, já que o Google sempre me prometeu mais espaço. Cada vez que chegava próximo ao limite, ele anunciava que eu havia ganhado mais alguns gigas de presente.

Diante desta abundância, quem vai se ligar que não é muito bom não apagar todos os e-mails do Peixe Urbano? Ou os milhões de e-mails para mim mesma, com links para ler depois, ideias desconexas de crônicas ou lembretes como COMPRAR PÃO?

E a nuvem? Ela surgiu para resolver os problemas desta vida de hardware que sempre levamos. Esqueça disquete, memória RAM, pendrive ou HD externo. Coloque na nuvem. Ainda por cima era lúdica, a desgraçada. Não é lindo imaginar todos os seus arquivos felizes, numa nuvem de dados, talvez banhados por um arco-íris?

É lindo, só faltou lembrar que neste céu Deus é onipresente e está de olho em todas as saliências das suas nuvenzinhas, um ótimo produto para vender ao Diabo. “Psiu, ela gosta de viajar. Oferece promoção de passagem para ela, é batata”. Além disso, a vista do céu é privilegiada e a especulação imobiliária está bombando. Logo, vamos começar a pagar pelo seu pedacinho de paraíso, que eu te dou uns gigazinhos de lambuja.

E para piorar, eu sei que esses não são os únicos lugares no qual salvamos todas as nossas tralhas digitais. Tem o computador de casa. Os vários pendrives espalhados por gavetas. O HD externo com backups de computadores que nem tenho mais. As fotos, meu Deus, as fotos. Estão na máquina fotográfica, no celular e espalhadas por pastas em todos os cantos.

É preciso reunir. Eu adoro uma arrumação de armário, mas devo dizer que a arrumação digital não me anima muito. Sei que levarei dias para juntar todos os arquivos num único lugar. Nem sei se vou conseguir, mas o que importa é a sensação de que estou no controle da minha vida virtual (não estou, claramente).

Eis que chega o momento de decidir. Apelo para a tangibilidade dos arquivos físicos? Ou pela praticidade da nuvem? Vendo minha vida para a Google ou para a Microsoft? É fato que o Bill Gates já está com a minha vida há mais tempo. Mas o Google nunca me fez chorar porque o computador não colaborou, a impressora pifou, e a atualização do Windows travou o notebook. Ele só vendeu meus dados sem minha permissão (ou com, quem lê as letras miúdas?), mas quem não fez isso nos últimos tempos?

O páreo foi duro, mas acabei comprando um HD externo de 2 terabytes — o novo prefixo me deu um certo conforto. Não é etéreo, mas é bonitinho e bem mais leve que uma gaveta real cheia de fotos, arquivos, livros e outras tralhas digitais. Resta saber se minha vida é deste tamanho ou se vou ter que encarar um regime.

 

Mascotes e mascates

Por Vanessa Henriques

Constatei esta semana, com pesar, que as redes sociais estão acabando com o meu bairro. Não pense que farei aqui um retrato melodramático de pais que mandam mensagem via WhatsApp para os filhos na mesa de jantar. Nem do acirramento do fla-flu de paneleiros e mortadelas. A questão aqui é outra.

Primeiro, cabe dizer que moro na Vila Mascote. Esse bairro simpático, cheio de espigões neoclássicos e árvores, está também repleto de mascotes. Cachorros de todos os tamanhos, gatos, chinchilas e até mesmo uma barulhenta cacatua foram vistos e ouvidos por estas ruas.

Os mascotes têm pedigree e são levados para passear com regularidade. Só que — e aí começo a abordar o problema — esses passeios estão mais para uma volta zumbi pelo bairro. Pets que aguardam o dia todo por seus amados donos precisam disputar sua atenção com outros pets mimados o dia todo: os celulares.

E dá-lhe cachorrões enormes, afoitos, passeando no passo do elefantinho enquanto o dono rola a tela infinita de bobagens no Facebook. Não aprecia, assim, as varandas envidraçadas, as calçadas apertadas e batizadas, e todo o ar de refinamento da prima modesta de Moema.

O ar despojado e conectado dos moradores leva a um segundo problema: os estabelecimentos comerciais. Sou afeita a um bom comércio local. Vou a inauguração de supermercado, tomo café em todas as padarias, prestigio todos os eventos sociais — à exceção da infame passeata pela paz que acabou sendo interrompida por um roubo.

Mas nesses 3 anos vivendo entre mascotes, ainda restam estabelecimentos desconhecidos. Não de minha parte. Posso ser fácil de se ver por aí, mas gosto de ser conquistada. Uma boa panfletagem, carro de som na rua, distribuição de pipoca, quem não gosta?

Eis que num dia qualquer o celular vibra na mesa. A pizzaria da rua de baixo, na frente da qual eu já passei mil vezes, me pede para adicioná-la no Instagram. A mesma pizzaria sem placa na fachada, a mesma que nunca me deu um ímã de geladeira. A que nunca encartou um cardápio no meu jornal ou deixou um panfleto na caixinha de correspondência.

Passada a revolta inicial, veio a dúvida: como eles sabem que eu moro no bairro? Rodei minhas curtidas e descobri: eu tinha começado a seguir há algumas semanas o perfil do salão de cabeleireiro que frequento. Eles são capazes de me achar assim, mas não me cortejam quando eu passo na calçada.

Restava decidir. Por que eu ficaria vendo fotos de pizzas que nunca consumi na minha timeline? Ficaria igual a tantos outros mascotes, esperando pela volta que nunca vem? Ou deveria me render ao mundo digital e tentar espiar se o bendito telefone e cardápio estão na descrição da bio?

Não me rendi. Se não me deu brinde quando eu tava na rua, não vem tentar ser meu seguidor. Deixei de seguir o salão e desativei o GPS e qualquer indicação de que moro ali. Na rua, eu gosto mesmo é de passear sem coleira.