Rasta pé

Por Vanessa Henriques

“a poesia está em tudo, tanto nos amores quanto nos chinelos,

tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas”.

Manuel Bandeira

O chinelo é o melhor amigo do homem. Esqueça o totó, o gatinho e até mesmo o papagaio. Ele é quem nos espera depois de um longo dia de trabalho, ali, meio de canto, só aguardando para voltar a ser o protagonista do lar. Sem contar suas inegáveis qualidades na hora de matar barata!

Eu não sei vocês, mas para mim, chinelo é sinônimo de conforto. Tanto que chego em casa e me apresso em tirar os sapatos e me aconchegar naquele famoso modelo ‘chinelão’, de solado grosso de borracha, bolinhas massageadoras na sola e tira larga. Luxo puro.

Meu caso de amor com ele é antigo. Tenho muito viva em minha memória a lembrança de ir à feira livre com minha mãe, e andávamos bastante até a banca dos chinelos, que era na outra ponta. Chegando lá, escolhia o modelo mais arrojado e confortável, experimentava em cima do papelão, pra não sujar a sola, e fechava o negócio.

Mas lá em casa a regra era clara: chinelo só pra andar em casa, no máximo no quintal. Nada de sair na rua com ele. Esse mantra guiou e ainda guia minha existência, tanto que olho de rabo de olho, meio contrariada, quando vejo alguém com chinelão na rua.

A relação que criamos com esse acessório é a de um amor duradouro, e não de verão. Não é para menos: ele te recebe após um longo dia de trabalho, te acompanha nos momentos de ócio e lazer e entende sua anatomia podóloga (e aqui me entrego a neologismos apaixonados).

Um dado momento, sem mais nem menos, observamos o princípio do fim: uma pequena rachadura começa a se infiltrar em meio a nossa relação, seja na sola ou na tira. E por mais que tenhamos cuidado, essa rachadura cresce, a todo tempo, como um cronômetro que nos lembra de que o término do namoro está próximo.

E um dia o namoro acaba de fato, e não há superbonder e toda boa vontade do mundo que faça a liga grudar novamente. Sentimo-nos vazios, chegamos a casa e nos lembramos, dia após dia, que esquecemos de novo de passar na loja para comprar outro chinelo…

E quando você finalmente se lembra de ir a loja, vai se deparar com uma imensidão de cores e modelos de ‘crocs’ — que saem de casa e, portanto, merecem a reprovação da mamãe — e alguns chinelos no canto. Não se assuste com o preço, a inflação atinge até mesmo os bens mais necessários e cotidianos de nossa cesta de produtos.

Dê tempo ao tempo, e se acostumará ao novo amigo. Não terá a mesma cor e conforto do anterior, mas com o tempo você descobrirá suas qualidades. Afinal sempre existe um chinelo velho para um pé cansado.

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13 thoughts on “Rasta pé

  1. Muito bem lembrada essa “homenagem” ao chinelo! Eu adoro chinelos e também acho que eles são os nossos “melhores amigos”. Amigos do “peito” (ops, do pé) que a gente sempre deixa ficar bem velhinho e é quando ficam assim, tão tempo conosco, é que percebemos o quanto é “valioso” no nosso dia a dia… Quando chegar em casa hoje (espero que não demore muito) vou fazer uns carinhos no meu chinelão, velho (literalmente) amigo! rs

  2. Olha, eu ainda não tinha parado para pensar no valor dos chinelos pra mim e como eu me sinto quando eles vão embora.
    Muita verdadeira a homenagem!

  3. Adorei o texto! Principalmente porque meu último chinelo durou mais de dez anos (não me lembro direito quando eu comprei…), e quando precisei trocar…comprei exatamente o mesmo modelo! Espero que ainda encontre este modelo daqui dez anos!

    1. Olha só, vários chineleiros no pedaço rs
      Agora a pergunta que não quer calar é: como fazer um chinelo durar 10 anos Henrique???? E ainda encontrar o mesmo modelo!!! Desse jeito dá pra comprar uns 8 pares e garantir pro resto da vida rs

      1. Bem, um costume por aqui é ir até a feira e comprar tiras novas para minha velha havaiana. É quase já um rito anual. De todo modo, 10 anos é realmente um feito.

    2. Havia esquecido de comentar, mas faço o devido registro agora: Caramba! Você deve ter tido apenas dois chinelos na vida, né? rs

      1. auhahuauha nem lembro quantos pares eu já tive, esse ai que durou uma década eu peguei quando tinha uns 13 ou 14 anos…antes disso não havia chinelo (nem tênis) que sobrevivesse muito no meu pé!

  4. Eu venho dizendo e não é de hoje: a humanidade vai olhar para atrás… Crocs, Lady Gaga. Anos 20 da nova era será a próxima década perdida!
    Chinelo havaiana com meia sempre. Crocs jamais!!!

  5. Oi Vanessa, vim retribuir a gentileza…fazer uma visitinha no seu blog rs Então, achei uma graça essa ‘ode’ ao chinelo, nunca tinha parado pra pensar na importância dele (mais é isso o que um bom escritor faz: chama nossa atenção pra’s coisas aparentemente banais), embora custe a jogar os meus fora e tenha certo apego (parece que qto mais velhos, melhores ficam…sei lá se é isso mesmo rs) por eles. Você escreve muito bem (e olha que em áreas como letras e jornalismo, é raro achar gente com esse dom pra escrever crônicas). Vou seguir o seu blog a partir de agora.
    Ah, última coisa: pelo visto aquele negócio de as Havaianas custarem caro em NY e o povo usar até na 5º avenida não te comoveu, não né? rs abração!

    1. Oi Ana Cláudia! Fico feliz que tenha passado por essas bandas rs
      Agradeço os elogios!! 🙂

      Eu adoro havaianas, mas… chinelão bom é aquele grande, de borracha! hehehe

      Abraço!

  6. […] Quanto às minhas crônicas… Bom, vou chover um pouco no molhado, afinal as minhas preferidas também são as preferidas de outros! Rs Tenho muito carinho por ‘Caiu na Rede’, ‘Retina’ e ‘Fechado para balanço’. Gosto bastante também de uma crônica sobre chinelos, uma das recordistas de comentários: Rasta pé. […]

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