Por Vanessa Henriques
“a poesia está em tudo, tanto nos amores quanto nos chinelos,
tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas”.
O chinelo é o melhor amigo do homem. Esqueça o totó, o gatinho e até mesmo o papagaio. Ele é quem nos espera depois de um longo dia de trabalho, ali, meio de canto, só aguardando para voltar a ser o protagonista do lar. Sem contar suas inegáveis qualidades na hora de matar barata!
Eu não sei vocês, mas para mim, chinelo é sinônimo de conforto. Tanto que chego em casa e me apresso em tirar os sapatos e me aconchegar naquele famoso modelo ‘chinelão’, de solado grosso de borracha, bolinhas massageadoras na sola e tira larga. Luxo puro.
Meu caso de amor com ele é antigo. Tenho muito viva em minha memória a lembrança de ir à feira livre com minha mãe, e andávamos bastante até a banca dos chinelos, que era na outra ponta. Chegando lá, escolhia o modelo mais arrojado e confortável, experimentava em cima do papelão, pra não sujar a sola, e fechava o negócio.
Mas lá em casa a regra era clara: chinelo só pra andar em casa, no máximo no quintal. Nada de sair na rua com ele. Esse mantra guiou e ainda guia minha existência, tanto que olho de rabo de olho, meio contrariada, quando vejo alguém com chinelão na rua.
A relação que criamos com esse acessório é a de um amor duradouro, e não de verão. Não é para menos: ele te recebe após um longo dia de trabalho, te acompanha nos momentos de ócio e lazer e entende sua anatomia podóloga (e aqui me entrego a neologismos apaixonados).
Um dado momento, sem mais nem menos, observamos o princípio do fim: uma pequena rachadura começa a se infiltrar em meio a nossa relação, seja na sola ou na tira. E por mais que tenhamos cuidado, essa rachadura cresce, a todo tempo, como um cronômetro que nos lembra de que o término do namoro está próximo.
E um dia o namoro acaba de fato, e não há superbonder e toda boa vontade do mundo que faça a liga grudar novamente. Sentimo-nos vazios, chegamos a casa e nos lembramos, dia após dia, que esquecemos de novo de passar na loja para comprar outro chinelo…
E quando você finalmente se lembra de ir a loja, vai se deparar com uma imensidão de cores e modelos de ‘crocs’ — que saem de casa e, portanto, merecem a reprovação da mamãe — e alguns chinelos no canto. Não se assuste com o preço, a inflação atinge até mesmo os bens mais necessários e cotidianos de nossa cesta de produtos.
Dê tempo ao tempo, e se acostumará ao novo amigo. Não terá a mesma cor e conforto do anterior, mas com o tempo você descobrirá suas qualidades. Afinal sempre existe um chinelo velho para um pé cansado.
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