Por Vanessa Henriques
— Olá, estou começando hoje o curso de história da arte. Você poderia liberar a catraca, por favor?
— A senhora já fez o cadastro da digital? — rebateu a recepcionista sem levantar os olhos da tela do computador.
— Não, ainda não. — respondi um pouco envergonhada.
— Posicione seu dedo indicador direito na luz vermelha. A leitura será feita em três fases, retire o dedo toda vez que a luz piscar.
— Ok!
Três piscadas depois, o assunto estava resolvido. Ou ao menos parecia. Posicionei o dedo confiante, certa de poder ingressar tranquilamente no mundo das artes. Mas a recepcionista, com um sorriso de Monalisa, deu a notícia:
— Não identificado, senhora. Tente novamente.
Todas as tentativas foram inúteis. Mão direita, mão esquerda, só faltou tentar com o dedão do pé! A recepcionista, já impaciente, me olhava como se eu fosse a culpada.
— Olha moça, posso me identificar de outras formas, toma aqui o meu RG.
— Sinto muito senhora, mas a digital tem que conferir.
— Bom, vamos ter que arranjar um meio termo. O que vocês guardam de tão preciso aí que eu precise me identificar? Um Monet? O Monet? É ele quem vai dar a aula?
Foi por aí que cometi o erro estratégico de irritar a única pessoa que poderia me deixar entrar. E não parei por aí. Disse que ligaria pra minha mãe, e ela encaminharia por fax meu teste do pezinho. Que iria chamar o Michelangelo para pintar minha digital na parede da entrada. Que não me curvaria diante da burocracia. Pensei em saltar a catraca, mas achei que aí já seria cruzar um pouco a linha.
Pensei em ligar para quem tinha me indicado o maldito curso e despejar a minha raiva, mas antes disso teria que enfrentar a tesouraria e todas as burocracias possíveis e imagináveis naquela Capela Sistina amaldiçoada.
Maldita hora que decidi fazer “algo por mim”, “me dar o direito a alguns momentos de lazer”. Mas eu sei que esse inferno de Dante haveria de me encontrar em outro lugar. Afinal, agora tem que colocar a digital no relógio de ponto, no curso de inglês, na academia e daqui a pouco até na padaria vão fazer fiado pela digital. Se não pagar, não vai poder colocar mais as patas no recinto, literalmente!
Assim como não gosto de informar meu CPF em qualquer esquina (nota fiscal paulista, senhora?), também não me sinto confortável em deixar minhas digitais gravadas por aí. Tudo bem que elas não costumam me identificar… Mas vai que um dia eu mudo de ramo? E se depois do assalto do século me pegarem devido a um esbarrão na porta de vidro que foi cruzado com a digital do curso de história da arte?
De digital já basta o relógio, a tevê e o computador. E vamos combinar que digital boa é aquela de pele para pele, que ao invés de deixar marca, deixa sorrisos. As que sobrarem, deixamos pras luzinhas vermelhas das catracas da vida.
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