Infiltração

Por Vanessa Henriques e Por Liniers

Como é bom ouvir o barulho da chuva lá fora, enquanto nos aconchegamos quentinhos e sequinhos em casa. Como é bom ficar quieto, em silêncio, enquanto os toque-toques insistem em bater na janela.

Mas a gente não costuma aproveitar a chuva como deveria. Reclamamos do trânsito, do semáforo, da calça molhada. Eu não gosto de nada disso, mas a pobre da chuva não deveria levar a pior. Ela nada tem a ver com isso. Ela veio primeiro.

Já fiquei muito emburrada por trabalhar com os pés molhados, por não ter banco seco pra sentar, do guarda-chuva furado, do ônibus cheio e abafado. Mas esses são problemas do homem, às vezes é bom separar.

A chuva virou inimiga: causa enchente, transtorno, goteira, trabalheira. Mais inconvenientes somos nós, que atrapalhamos o curso da chuva. Ela só queria cair do céu, aliviada depois de um dia abafado, penetrar na terra, quem sabe ir parar num lençol. Nós atrapalhamos também o caminho dela, mas ela não se vinga de nós. Continua caindo, incólume, sob nossas cabeças.

As andorinhas, ao contrário, dançam e brincam, recepcionando a chuva que decidiu cair impiedosa. Molham as penas sem dó, sem pensar no estrago do dia seguinte. Enquanto há chuva, há motivos para furá-la com voos rasantes.

Gosto de pensar que a chuva, assim como nós, tem humor. Às vezes ela vem serena, quase polvilhando, caindo por cair, leve como uma pluma. Vem também carregada, raivosa, precisando desabafar. E por vezes não sabe se vem ou se fica, e vai alternando sua indecisão ao longo do dia.

Somos impermeáveis à água, mas permeáveis às sensações. Qual o humor da chuva de hoje?

impermeable

Respostas

  1. Uau! Que texto espetacular, e tão curtinho! E mesmo assim consegue dizer muito. Adorei o tema e o ponto de vista. Realmente inspirador.

  2. Ver a chuva chegando é um espetáculo (mesmo quando ela vem raivosa e assustadora), por isso é tão bom ter um horizonte aberto, uma montanha… É muito legal como os pássaros pressentem primeiro o seu “humor” e esperam por ela.

    “Canção da chuva e do vento” de Mario Quintana

    Dança, Velha. Dança. Dança.
    Põe um pé. Põe outro pé.
    Mais depressa. Mais depressa
    Põe mais pé. Pé. Pé.

    Upa. Salta. Pula. Agacha.
    Mete pé e mete assento.
    Que o velho agita, frenético,
    O seu chicote de vento.

    Mansinho agora… mansinho
    Até de todo caíres…
    Que o Velho dorme de velho
    Sob os arcos do Arco-Íris.

    Mario Quintana (Canções, 1946)

  3. Chuva é algo complicado mesmo… Odeio ela durante o dia (sempre estou de sapatilha…), mas estando em casa protegida.. adoro!

  4. […] que depois de tudo isso, eu leio um texto lindo sobre a […]

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.