Por Vanessa Henriques e Por Liniers
Como é bom ouvir o barulho da chuva lá fora, enquanto nos aconchegamos quentinhos e sequinhos em casa. Como é bom ficar quieto, em silêncio, enquanto os toque-toques insistem em bater na janela.
Mas a gente não costuma aproveitar a chuva como deveria. Reclamamos do trânsito, do semáforo, da calça molhada. Eu não gosto de nada disso, mas a pobre da chuva não deveria levar a pior. Ela nada tem a ver com isso. Ela veio primeiro.
Já fiquei muito emburrada por trabalhar com os pés molhados, por não ter banco seco pra sentar, do guarda-chuva furado, do ônibus cheio e abafado. Mas esses são problemas do homem, às vezes é bom separar.
A chuva virou inimiga: causa enchente, transtorno, goteira, trabalheira. Mais inconvenientes somos nós, que atrapalhamos o curso da chuva. Ela só queria cair do céu, aliviada depois de um dia abafado, penetrar na terra, quem sabe ir parar num lençol. Nós atrapalhamos também o caminho dela, mas ela não se vinga de nós. Continua caindo, incólume, sob nossas cabeças.
As andorinhas, ao contrário, dançam e brincam, recepcionando a chuva que decidiu cair impiedosa. Molham as penas sem dó, sem pensar no estrago do dia seguinte. Enquanto há chuva, há motivos para furá-la com voos rasantes.
Gosto de pensar que a chuva, assim como nós, tem humor. Às vezes ela vem serena, quase polvilhando, caindo por cair, leve como uma pluma. Vem também carregada, raivosa, precisando desabafar. E por vezes não sabe se vem ou se fica, e vai alternando sua indecisão ao longo do dia.
Somos impermeáveis à água, mas permeáveis às sensações. Qual o humor da chuva de hoje?

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