Por Vanessa Henriques
A rotina é um bicho esquisito. Desejada e indesejada, ela passa de vilã a mocinha em questão de segundos. É motivo para reclamar do tédio e do desassossego, mas também um alívio praqueles dias agitados em que tudo que conseguimos pensar é: quando vou poder voltar para minha doce e monótona rotina?
Eis que, num golpe de sorte, essa rotina muda. Completamente. Pode ser uma troca de casa, de emprego, de namorado ou de caminho. De repente o mundo muda, sutilmente, e nos obriga a adaptarmo-nos a um novo olhar.
Antes da mudança, tudo são só saudades. É a última vez que pego este ônibus. É a última vez que faço esse caminho. Nos despedimos, timidamente, internamente, de todos aqueles lugares pelos quais gostávamos de passar, outros nem tanto. O nascer do sol no cemitério da Consolação. Aquele restaurante maravilhoso. Aquelas lojas nas quais sempre prometi entrar, mas nunca entrei. Sabe como é, atrapalharia as tarefas rotineiras…
Nesse clima de nostalgia nos esquecemos o que nos fez mudar, o que nos impulsionou para o outro caminho, novo e imprevisível. Um emprego maçante, uma vizinhança implicante, um namorado ciumento. Cada um tem seus motivos.
E surge assim, o novo. Difícil adaptar o novo à velha rotina. O olhar escapa por novas lojas, novas esquinas. De repente, voltamos a nos importar com o ponto de ônibus, ainda incerto. Namoramos restaurantes e potenciais namorados andando pelas ruas. Buscamos olhares familiares. Eles não existem ainda, mas virão com o tempo.
E nos esquecemos, ainda que momentaneamente, de que dentro de algumas semanas, talvez meses, já teremos nos acostumado a tudo que antes parecia excitante e diferente. Até lá, aproveitamos o momento.
Nada como descobrir um lugar novo. Mas como na geografia dos corações não existe caminho fácil, e é bem capaz que desperdicemos esse instante com nostalgia do que já foi, com teimosia em deixar-se apaixonar. Tudo bem, também faz parte do processo.
E mais uma vez retornamos ao início destas linhas tortas, maldizendo ou desejando a rotina que nos devora e conforta. Até que uma reviravolta nos obrigue a ver tudo com outros olhos.
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