Palco

Por Vanessa Henriques

Participei, na última sexta-feira, de uma procissão por um dos muitos bairros que compõem a cidade de São Paulo. O tempo ajudou: não fazia calor, nem frio, só o vento insistia em apagar as velas de alguns fiéis, que eram novamente acesas com a camaradagem do colega ao lado.

Apesar da pouca proximidade com os dogmas católicos, sempre apreciei participar de procissões. Desde pequena, quando minha avó me levava, gostava de ver a cidade toda escura, iluminada apenas pelas velas e rezas de uma multidão que se estendia até perder de vista. Lembro-me de olhar para trás a cada subida, para olhar lá pra baixo e ver a quantidade de pessoas que vinham atrás de mim.

Hoje, com os olhos de menina crescida, segue o encanto com a procissão, mas a visão é distinta. Enquanto caminhava pelas ruas, mil pensamentos corriam em minha mente, alguns mais fortes do que outros.

O primeiro deles remete a minha própria experiência. Não devo ser só eu que aprecio as procissões, afinal durante todo o trajeto era possível ver pessoas nas sacadas dos prédios e casas apreciando a passagem do coro. Não sei se estavam incomodadas com o barulho que os impedia de ver a novela, se zombavam da fé alheia, ou se simplesmente assistiam ao fenômeno com os mesmos olhos admirados que eu. Uma coisa é certa: havia algo de diferente, afinal é raro ver tantos olhos voltados para a rua, mesmo lá do 15º andar.

E de onde viria meu encantamento atual com a procissão? Tenho uma hipótese, formulada ao longo da caminhada. Ainda que seja por uma noite ao ano, as pessoas tomam as ruas para si, para anunciar a sua fé, para refazer os passos de Jesus, ou para o que seja. Mas a rua volta a ser de todos.

Alguns carros nos cruzamentos aguardam, de forma resignada, a passagem do bando, assim como os pedestres aguardam todos os dias a passagem da revoada de carros. Em passos lentos, em oração ou em silêncio, uma pequena multidão toma as ruas, gesto que se repete em vai saber quantas paróquias na cidade afora.

Deveríamos aprender com essa sexta-feira, que como não poderia deixar de ser, é chamada de santa, que a rua é lugar de todos, que devemos tomá-las, caminhar por elas sem medo, acender velas e rezar ladainhas ou poemas, tendo em mente que este é o lugar em que todos são bem vindos.

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4 thoughts on “Palco

  1. Gostei muito, Vanessa. Em especial, gostei do último parágrafo quando diz que deveríamos tomar as ruas e caminhar sem medo, acender velas e rezar ladainhas ou poemas… imaginei a cena e achei lindo! Deveríamos fazer isso!

  2. […] por algumas como Candidata perfeita, O que você vai ser?, Nó cego, Vontades, CPF na nota? e Palco, além da ótima Fiat tenebris, mas vou eleger a Fechado para balanço, é a mais bonita na minha […]

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