Sobre ruas e santos

Por Vanessa Henriques

Andei hoje às voltas procurando uma crônica sobre eleições. Podia jurar que havia escrito algo sobre esse dia, que desde pequena sempre me atraiu. Errei: o texto que escrevi, lá no sugestivo 2014, falava sobre procissões – deixo para o leitor o exercício de procurar diferenças e semelhanças entre as duas coisas.

Então o texto deve ser escrito. Gosto muito de dia de votação, confesso já de cara. Há algo bom em ver tantas pessoas nas ruas, fazendo algo em comum, a comoção nas entradas dos colégios, o trânsito, as paradas em mão dupla.

Tudo isso adiciona um colorido diferente ao geralmente monótono domingo. Não sem um pouco de vergonha, gosto até dos santinhos espalhados pela rua. É sujeira pura, não deveria existir, mas são um prenúncio que o destino se aproxima, marcando o caminho tal qual miga de pão. Nostalgia besta dessa nossa geração entre a Barsa e o Google, vocês não reparem.

As eleições de hoje nada têm a ver com a dos tempos de criança. Meus pais votavam perto de casa, saíamos em romaria, cada qual com seu respectivo “parzinho”: meu pai com minha irmã do meio, unidos pela força dos nomes com ‘A’; eu e minha mãe subindo imensas escadarias até chegar à longínqua letra ‘V’, também nosso laço – e confesso que não me lembro para onde ia minha irmã mais velha, que não tinha ninguém com a letra ‘C’ pra acompanhar (desconfio que pra letra ‘A’, pela praticidade de não subir escadas).

As filas eram imensas, davam voltas no quarteirão. Colecionava santinhos nas mãos, um de cada candidato, fazia dobraduras, e tentava espantar o tédio da espera. Quando finalmente chegávamos à seção, eu aguardava minha mãe num cantinho, ela fazia alguma coisa numa cabine, e partíamos a procurar os demais no colégio lotado (sem celular, claro).

Hoje o voto é tão rápido, que mal vale a angústia da escolha. Já na porta pegam seu documento, você assina aqui, vota ali, churiluli, acabou. Ainda é um acontecimento, as ruas ainda ficam cheias, mas ao invés de colecionar santinhos, juntamos conjecturas: “viu o resultado da última pesquisa?”. “Antes segundo turno do que eleger esse charlatão”. “E a boca de urna, quando sai?”.

Da cabine até a noite, o resultado já será conhecido, e muita coisa deve mudar ou continuar na mesma. Em duas semanas a rua pode voltar a ser povoada, ou talvez só daqui a dois anos. Que ao menos esse dia não se misture no saco das desilusões da política.

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