Por Vanessa Henriques
Hoje a caminho do trabalho vi um pica-pau de cabeça amarela. Ele e uma pomba disputavam um pedaço de pão, mas ao notar minha presença ele fugiu, e subiu a árvore dando saltinhos até sumir entre as folhas.
Mais adiante, vi dois quero-queros muito à vontade em um gramado, disparando impropérios a qualquer coisa — vale lembrar que eles estavam muito próximos da avenida, então leia-se carros, motos, ônibus e pessoas — que ousasse chegar perto de seu precioso quintal.
Na copa de uma árvore, não vi nada, mas ouvi: o canto desesperado de uma..? Cinco..? Vinte maritacas, vou supor arbitrariamente! Maritaqueavam tanto que pareciam compor uma sinfonia, mas não vi nem sinal delas, que deveriam ser tão verdes quanto a copa da árvore do alto da qual não se calavam.
Já no trabalho, senti que algo tapava momentaneamente a luz do sol: olhei para a janela e vi dois urubus voando bonito — eles são feios, mas como voam bonito… — entre prédios espelhados e guindastes que levantavam outros prédios espelhados. Mergulhavam no vazio para depois retornar a toda. Ao menos alguém se divertia em horário comercial.
E pombas, vi muitas: de todas as cores, tamanhos e hábitos alimentares possíveis, como já nos acostumamos a ver.
Essas foram as aves que eu vi, mas quantas outras não estavam escondidas, como as maritacas, nos quatro cantos da terra da garoa? Mas afinal, o que há de interessante na cidade de São Paulo para que tantas aves morem por essas bandas? A quantidade de oportunidades de trabal… digo, de ganha-pão? A possibilidade de conhecer aves de toda parte? O MASP?
Responda, do fundo do seu coração: se você tivesse um par de asas, moraria em São Paulo? Imagino que muitos diriam: ‘não, moraria na praia, na montanha, daria uma volta completa no mundo ou viraria nômade’. Não é possível que a pipoca das velhinhas nas praças seja tão boa assim!
Mas o que nos prende a essa cidade que gostamos tanto de odiar? Falta-nos um par de asas? Migraremos pro Sul ou pro Norte? Viajaremos em bando sem parar? Por ora, vamos ficando… e, como quero-queros, defendemos esse descampado que aprendemos a chamar de realidade.
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