Por Vanessa Henriques
O ano mal começou, e já começou animado. No primeiro dia útil do mês virei para a chefia e falei: pois é, tô saindo. Não que eu houvesse um emprego milionário me esperando. Nem mesmo outro emprego. O que me esperava do outro lado eram alguns dias de sossego, um curso sem remuneração e uma remota possibilidade de contratação, só daqui a uns meses, se vier. Pensei, pensei muito mesmo. E saí.
A chefia em questão não reagiu assim tão bem. Ele quis saber mais, e eu contei até onde quis. Fui revelando aos poucos, como que saboreando um prato pelas bordas. “É uma oportunidade melhor?” “É sim”. “Você já tomou a sua decisão?” “Já sim”. “E a remuneração?” “Não tem”.
Esse foi o momento em que nós nos separamos, como se cada um estivesse em margens opostas de um grande rio. Em conversa com minha irmã, mais tarde, ela acertou na mosca: essa geração de chefes não entende esse tipo de postura. Não entende que há coisas que o salário, a comodidade e, por que não, o medo, não compram.
Eu estou com medo, claro, mas estou seguindo. Desci da margem e entrei num bote, sem saber aonde esse rio vai dar. Já conheço essa margem de cor e salteado, e se preciso for, volto para ela, sei o caminho. Mas acho que preciso de um período sem margens.
E que dificuldade é viver assim, para quem sempre teve “livro de ponto, expediente, protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor”. Grandes possibilidades, mas também grande incerteza. Apanho no leme, sinto a vela balançar, mas tenho que continuar indo, a decisão está feita.
E até lá, o que fazer? Ver TV? Estudar? Arrumar aquele armário da cozinha que nunca foi arrumado? Já me senti culpada por não fazer nada, e igualmente culpada por ficar arrumando o que fazer. Ninguém tem a resposta, e cada jangada vai no seu ritmo.
A jornada vai ser longa, irreversível talvez. Pode ser que eu me acostume, pode ser que não. Pode ser que eu me encontre, mas é bem provável que continue perdida (e quem é que se encontrou?). Mas eu valho a tentativa.
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