Trio

Por Vanessa Henriques

Deus?

É essa garoinha

para alguns tormenta

para outros, seca.

 

Gangorra

O menino de cima:

“para onde vai tanta água?”

O menino de baixo:

“de onde vem tanta água?”

 

Correnteza

Ia dar tempo. Tinha que dar tempo. Olhava para o alto. Dava batidinhas nas olheiras. As lágrimas se acumulavam em bolsões abaixo dos olhos e queriam sair. Mas ainda faltavam dez estações de metrô, um ônibus e uma caminhada até sua casa.

É certo que numa cidade deste tamanho, onde ninguém se conhece e mal olha na cara do outro, dá para passar despercebida. Mas sempre tem um ou outro que repara e tenta adivinhar o que houve. Quero chegar logo na minha casa, me enfiar embaixo do chuveiro. Vai dar tempo.

A primeira lágrima escorreu pela bochecha. Enxugou depressa, mas depois dela muitas outras encharcaram sua cara. Olhava para o alto. Dava batidinhas. O nariz escorria. Vasculhou pela bolsa a procura de um lenço. De um alento. De um motivo para acalmar. Nenhum.

Não tinha dado tempo. Quando finalmente chegou ao chuveiro, já tinha secado.

Respostas

  1. Muito bonito

  2. Concordo com o Carlos, principalmente os primeiros versos. Tinha ficado um tempo sem passar por aqui, mas agora estou atualizado! E os textos estão ótimos. E com um tempero novo que ainda não consegui definir.

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.