Trio

Por Vanessa Henriques

Deus?

É essa garoinha

para alguns tormenta

para outros, seca.

 

Gangorra

O menino de cima:

“para onde vai tanta água?”

O menino de baixo:

“de onde vem tanta água?”

 

Correnteza

Ia dar tempo. Tinha que dar tempo. Olhava para o alto. Dava batidinhas nas olheiras. As lágrimas se acumulavam em bolsões abaixo dos olhos e queriam sair. Mas ainda faltavam dez estações de metrô, um ônibus e uma caminhada até sua casa.

É certo que numa cidade deste tamanho, onde ninguém se conhece e mal olha na cara do outro, dá para passar despercebida. Mas sempre tem um ou outro que repara e tenta adivinhar o que houve. Quero chegar logo na minha casa, me enfiar embaixo do chuveiro. Vai dar tempo.

A primeira lágrima escorreu pela bochecha. Enxugou depressa, mas depois dela muitas outras encharcaram sua cara. Olhava para o alto. Dava batidinhas. O nariz escorria. Vasculhou pela bolsa a procura de um lenço. De um alento. De um motivo para acalmar. Nenhum.

Não tinha dado tempo. Quando finalmente chegou ao chuveiro, já tinha secado.

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2 thoughts on “Trio

  1. Concordo com o Carlos, principalmente os primeiros versos. Tinha ficado um tempo sem passar por aqui, mas agora estou atualizado! E os textos estão ótimos. E com um tempero novo que ainda não consegui definir.

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