Por Vanessa Henriques
Deus?
É essa garoinha
para alguns tormenta
para outros, seca.
Gangorra
O menino de cima:
“para onde vai tanta água?”
O menino de baixo:
“de onde vem tanta água?”
Correnteza
Ia dar tempo. Tinha que dar tempo. Olhava para o alto. Dava batidinhas nas olheiras. As lágrimas se acumulavam em bolsões abaixo dos olhos e queriam sair. Mas ainda faltavam dez estações de metrô, um ônibus e uma caminhada até sua casa.
É certo que numa cidade deste tamanho, onde ninguém se conhece e mal olha na cara do outro, dá para passar despercebida. Mas sempre tem um ou outro que repara e tenta adivinhar o que houve. Quero chegar logo na minha casa, me enfiar embaixo do chuveiro. Vai dar tempo.
A primeira lágrima escorreu pela bochecha. Enxugou depressa, mas depois dela muitas outras encharcaram sua cara. Olhava para o alto. Dava batidinhas. O nariz escorria. Vasculhou pela bolsa a procura de um lenço. De um alento. De um motivo para acalmar. Nenhum.
Não tinha dado tempo. Quando finalmente chegou ao chuveiro, já tinha secado.
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