Há tantas casas [croniquices, 7]

Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa em que nasceu.
(Mario Quintana)

Por Vanessa Henriques

Na minha cabeça, nossa casa já existe. Ela tem o charme de um projeto assinado de arquiteto, a despretensão de perfis hipsters de decoração no Instagram e o acolhimento que a memória afetiva da infância almeja.

A estrutura é simples, o terreno é largo. Um janelão na frente, um belo jardim, uma porta veneziana, trepadeiras que já dominaram a cobertura da garagem. A sala é espaçosa, sem luxo. A cozinha é grande, e tem panelas até pela barra do teto. A mesa de jantar cabe bastante gente, e cabe só nós, se a ocasião pedir. 

O quintal é a melhor parte da casa, com a horta ladeando o terreno, um pomar modesto, uns bancos e redes para descansar. Um balanço para os pequenos, um comedouro para os penosos. Uma mesa de madeira para almoçar ou para algum jogo de tabuleiro.

Nela cabem todos os nossos sonhos, os nossos desejos e projeções. Mas ela não cabe no nosso bolso, na nossa cidade, na nossa vida. E todo dia ela fica ali no cantinho da mente, pedindo atenção. 

Às vezes eu acho que deveria desistir, botar logo o pé no chão, encarar que o que tenho pela frente, ao menos no futuro próximo, é um apartamento (que eu amo) alugado, uma poupança para vinhos e viagens, e está tudo bem. Não há nada de errado nisso, e eu consigo me sentir muito bem na nossa casa atual. 

Uma casa (Foto: Carlos Oliveira)

Só que a gente coloca o tênis, e começa a fazer uma caminhada longa pelo bairro, e a cabeça vai voando longe. Varanda! Cobogós! Um salgueiro na calçada! Um redário móvel! Um canteiro de temperos! Uma lareira! Um piso aquecido! (esse dia fez frio)

Eu não sei se um dia a casa sai da nossa cabeça e vem pro mundo real — e, se isso acontecer, o que vamos colocar no lugar dela. Eu sei que nós sonhamos bem, sonhamos bonito. Só que temos uma baita dificuldade de tirar as coisas do papel.

Talvez a casa continue sendo a fantasia última de felicidade, a panaceia perfeita para uma vida em comunidade que não desfrutamos, um lugar para depositar nossa esperança de trabalhar menos (ou de um escritório confortável feito por nós), de plantar mais, de desfrutar da nossa completa companhia, sem intermediários ou preocupações. 

E isso significa que a casa pode começar hoje, agora, se nós quisermos. Podemos balançar em redes imaginárias, esquentar fondues na boca do fogão, plantar mudas ao invés de árvores, mudar uns móveis de lugar, criar castelos debaixo de cobertores. A casa já tem alicerce, já pode ser habitada.

Só que fazer planos é sempre melhor (ou mais fácil) do que realizá-los. Eu quero transformar em ação os meus pensamentos — e eu tento, no meu ritmo, sempre devagar. Mas também não quero perder a vontade de projetar uma outra vida, um horizonte, uma casa quentinha capaz de receber todas as minhas ideias tolas. 

Então a casa é meu elefante, que eu construo todo dia e carrego comigo num mundo enfastiado que já não crê em casas. Tem dia que ela cresce, ocupa o terreno todo, se enche de flor. Em outros, vira uma miniatura, e se não tomo cuidado, alguém pode pisar. O poeta recomeçava todo dia. Eu, por ora, também.00

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“Nem todos entenderiam o que queríamos daquela velha casa. Iriam nos chamar de loucos, inocentes, diriam que nós só quebraríamos a cara, que o mundo não funciona assim. Talvez por isso a casa fosse perfeita: ela era a personificação de tudo que acreditávamos.” A Casa, 30 de janeiro de 2014

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[croniquices, 7] Este texto integra as comemorações dos 7 anos do blog

A vida é um moinho, dizem. Aperta e afrouxa, sossega e desinquieta.

Por isso selecionei alguns textos que me tocaram nessa volta ao passado e resolvi dar uma cara de futuro para eles. A inspiração vem em trechos, o presente vem completo. Espero que apreciem e se reencontrem também.

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3 thoughts on “Há tantas casas [croniquices, 7]

  1. Que lindo este texto, adorei!!! Posso sugerir uma coisa? um cachorro pelo quintal, daqueles que ficam também na garagem, que passamos no portão e mexemos com ele rsrsrs

  2. Um dia essa casa “sonhada” cria alicerce, paredes, teto (com tudo o que sonharam para dentro e fora dela). As plantas crescem – criam-se os jardins e as hortas, os animais ocupam os seus lugares e… um dia, vocês se verão sentados num banquinho (ou na rede) admirando tudo isso. É o sonho realizado. Vocês irão respirar fundo e, felizes, irão buscar outro sonho pra realizar.
    Adorei o texto que tão bem falou de sonhos (que também sonhei por um bom tempo). Agora, de vez em quando me pego sentada no banquinho (ou na rede) e…

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