Eu já fiz 30 [croniquices, 7]

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.
(Mia Couto)

*

retrato de lado
retrato de frente
de mim me faça
ficar diferente
(Paulo Leminski)

Por Vanessa Henriques

Não são poucos os sinais de que estamos envelhecendo. Começa com uma história que parecia recente, mas que na verdade ocorreu há 10 anos. Um joelho que começa a doer na hora de descer do ônibus. Lembrar de uma pessoa que você tinha esquecido completamente da existência. Perceber que uma preocupação antiga já não habita seus pensamentos.

A idade nunca me afligiu —acho inclusive um pouco chata essa coisa de mentir idade, dizer que queria voltar no tempo, que tem a alma jovem ou coisa que o valha. Deve ter contribuído para isso o fato de eu ser a irmã caçula, então sempre pude tirar sarro nos aniversários dos outros e emendar: “se eu sou velha, imagina você!”

E também consigo sentir os benefícios do tempo, especialmente no que diz respeito ao espírito. Não tenho o menor interesse em voltar ao tormento da adolescência ou à integração forçada dos primeiros anos de faculdade, para ficar em dois exemplos. Toda fase tem suas alegrias e agruras, mas o passo seguinte sempre traz a tranquilidade de quem já passou por isso. 

Mas percebi nos últimos tempos algo que ficou no meio do caminho, que eu estava inclusive negligenciando: minha autoimagem. Perdida e entretida entre pensamentos e conjecturas, eu parei de me olhar — para ser mais precisa, parei de me reconhecer no espelho.

As marcas do tempo (Foto: Vanessa Henriques)

Começa naquela roupa que você usa sempre e de repente desenvolve uma repulsa. Aí você abre o guarda-roupa e vê que não gosta particularmente de nada que está ali. O corte de cabelo não agrada, mas também não se sente particularmente inspirada para mudar. A maquiagem está encostada num canto do banheiro, porque todo dia você está cansada demais para tentar dominar o delineado gatinho.

Li outro dia um tuíte que me tocou porque definiu exatamente o que estava sentido. A Carla Soares, do @outracozinha, mandou na lata: “Às vezes acho que a imagem mental que faço de mim mesma parou de corresponder a como agora eu pareço.”

É isso. Eu posso me ver hoje muito mais madura do que há alguns anos, consigo reconhecer meus méritos e minhas falhas, tudo que ficou para trás e o que ainda preciso encarar daqui em diante. Mas na minha cabeça eu ainda sou uma jovem, imagina, um bebê recém saído da faculdade. 

Imagino que quem, assim como eu, vive com os neurônios fritando em alta voltagem, isso seja comum. Nunca fui muito de me olhar no espelho, e há claros problemas de autoestima que não foram resolvidos nesse processo, o que não ajuda. Pode ser também um mal dos solitários.

Só que nosso corpo é o veículo de toda essa aventura cósmica que chamamos de vida. Quem nos ama, quem nos odeia, o que produzimos, como nos divertimos, tudo isso envolve esse avatar. Eu posso achar que estou arrasando, supermadura, mas na verdade o meu amigo está vendo uma pessoa incrível mas que usa a mesma combinação de roupas todo dia. E aí?

E daí? Claro que eu não estou pregando que todo mundo vá se embonecar sem querer, ou que vá tentar se igualar à sua imagem mental forçando uma realidade que já passou ou que não tenha a ver com você em nome do “apropriado para a idade”. Mas me parece uma fuga, tal qual algo facilmente julgável como uma aplicação de botox, se esconder nessa ilusão, e se negar de certa forma.  

Então foi preciso encarar o espelho uma, duas, muitas vezes, e começar a acertar os ponteiros. Rever o guarda-roupa e as expectativas. Lembrar o que custou para chegar até aqui. Encarar um corretivo nas olheiras, por que não, também faz parte. Olhar por dentro, olhar por fora. É tudo a mesma coisa. E muda todo dia.

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“Mas não nos separamos, como se um muro se erguesse entre nós. Gosto de pensar nessa transição como uma ponte: você me diz o que tem aí do outro lado, e eu te lembro do que tem por aqui. E assim, seguimos juntas nessa estrada da vida — que deve ser mais uma estrada, ainda que sinuosa, do que uma corrida de obstáculos.” Trinta, 22 de julho de 2014

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[croniquices, 7] Este texto integra as comemorações dos 7 anos do blog

A vida é um moinho, dizem. Aperta e afrouxa, sossega e desinquieta.

Por isso selecionei alguns textos que me tocaram nessa volta ao passado e resolvi dar uma cara de futuro para eles. A inspiração vem em trechos, o presente vem completo. Espero que apreciem e se reencontrem também.

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