De pé, cansa

Por Vanessa Henriques

Já começo este texto pedindo desculpas pela prolongada ausência e pela frivolidade do tópico. No entanto, acredito que ele possa tocar os corações de leitores com escoliose, lordose, pico de papagaio ou, simplesmente, um chefe.

Escrevo estas linhas do alto (nem tanto) de uma cadeira do escritório. Ela é como todas as cadeiras de escritório: desconfortável, com regulação insuficiente e design sofrível. Cuidadosamente escolhida para o tamanho da bancada, ela me obriga a escolher entre apoiar os cotovelos em seu braço ou ficar a uma distância razoável do teclado.

O agravante fica por conta dos meus 1,75m e uso de salto (pequeno!), que me obriga a ficar com as pernas na mesma posição o dia inteiro. Some-se a isso uma escoliose e a obrigação de ficar sentada por 8h em frente a este computador. Tudo bem, a culpa foi minha, quem mandou ser de humanas?

Eis que, virando o pescoço (de leve, pra não piorar o quadro), vejo a cadeira do chefe. É alta, imponente, encosto que cobre toda a superfície das costas, um luxo. Tem regulagem de altura decente para maiores de 1,65m. Revestimento acolchoado. Até a cor é diferente. Afinal, ele é o chefe, e se suas atitudes não mostrarem isso, tudo bem, afinal a cadeira se encarregará do resto.

É realmente patética esta separação. Uns dirão que os chefes trabalham mais horas (tenho colegas com média de 12 horas diárias que desmentem), que são mais velhos, que já esquentaram muita cadeira ruim. Ok. Mas será que para ser chefe (além de ser homem) precisa desenvolver lordose?

Há algumas semanas, enquanto procurava uma cadeira para a minha casa, logo fui atraída por um exemplar vistoso, alto, com encosto confortável — ou seja, a típica cadeira que nunca terei no trabalho. Na etiqueta, o nome: ‘cadeira diretor’. As que eu estava acostumada a sentar no trabalho eram as ‘cadeiras giratórias pretas’. Tinha a ‘cadeira presidente’ também, mas achei muito espalhafatosa.

Resignada, comprei a cadeira de diretor com meu salário de peão para disfrutar de alguns bons momentos em casa. E, de repente, fiquei muito motivada a disputar um cargo de chefia. Minha plataforma? Cadeira diretor para todos!

Alçada à chefia, poderia desfrutar de conforto ortopédico e algum prestígio, afinal ninguém senta numa cadeira dessas à toa, não é mesmo? Se meu plano falhar, abro um estúdio de pilates, afinal uma coisa é certa: não vai faltar patrão e peão estropeado no futuro próximo.

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O telefone tocou novamente

Por Vanessa Henriques

Turururururu… Turururururu…

Um dia, foi no metrô. O barulhinho abafado só podia vir do celular jogado na mochila. Fiz uma manobra ousada no vagão cheio para descobrir que não era o meu celular, e sim de uma moça sentada logo ali.

Turururururu… Turururururu…

Esse dia foi na rua, já voltando para casa. Rua relativamente vazia, hora avançada, podia ser minha mãe perguntando se eu tinha sido sequestrada (ela recebe telefonemas semanais do tipo), melhor olhar. Manobra da mochila, vasculho o bolso, e o barulho para. Era do segurança do prédio.

Turururururu… Turururururu…

Aquela outra vez foi no ônibus, dia de chuva, encostada-quase-caindo na sanfona. Já calejada, deixei tocar, se esgoelar. Devia de ser o celular do ambulante, ou do cobrador, ou minha mãe retornando pro ladrão com o dinheiro do meu resgate. Parou.

Toda a trama cheira ao clássico Pedrinho e o Lobo: um dia realmente será o meu celular a chacoalhar no bolso, com uma irrecusável proposta de emprego, um prêmio de promoção de supermercado ou quem sabe uma herança esquecida. Deixarei passar sem dó, com a bênção da ignorância.

Mas o que me irrita não é o infortúnio da ligação perdida ou a cara de besta de perceber que ninguém te ama, ninguém te quer (a parte de comer barata é opcional). O que incomoda é pensar que nos tornamos seres que andam com as mesmas duas marcas de celular no bolso — e a Apple e a Samsung claramente não ligam muito para toques de celular.

Nem sempre foi assim: num passado não muito longínquo toque de celular bacana era aquele ritmado, com a música do momento na sua versão polifônica. O ringtone foi sucesso absoluto e coroava a modernidade junto com o flip, a tela colorida e o fim das antenas.

Operadoras ofereciam ringtones variados, saídos das paradas do rádio. Eu mesma me lembro de ter instalado um toque da música do Queen (it´s a kind of magiiiic) que me acompanhou por um bom tempo. Havia um problema, como em toda tecnologia de ponta: as músicas demoram muito para chegar a um ponto conhecido (geralmente o refrão), e muitas vezes ninguém reconhecia seu ringtone escolhido com tanto esforço.

Mas havia o mais importante: diversidade. Por mais que muita gente gostasse da Ivete Sangalo, teria toda uma discografia para escolher. Hoje todos ouvimos a mesma música da Ivete (e uma mais ou menos, não exatamente um hit).

Por ora, decidi fazer uma intoxicação forçada: deixo o celular no silencioso, assim não corro mais o risco de ser enganada. Criei um código com minha mãe para quando o sequestro for real. Prefiro um celular mudo a um sem personalidade nenhuma! — brado com meu Samsung Android com capinha do Mickey na mão.

Vizinhança atacada

Por Vanessa Henriques

Poucas coisas são tão adultas e tão deprimentes quanto se animar com inauguração de supermercado. Ainda assim, geralmente é um acontecimento que pára um bairro, não importa seu tamanho (e nem venha me dizer que na metrópole isso não acontece, pois tudo não passa de uma grande paróquia colada na outra).

O assunto me veio à cabeça quando percebi que iriam abrir dois supermercados no meu bairro. Na verdade só um estava abrindo, o outro tinha fechado para mudar de marca (mas não de dono). Ficava atenta às conversas no ônibus: “vai abrir logo”, “vai ser um atacadista”, “vão ampliar”. Ficou claro que a expectativa não era só minha.

E é também o tipo de coisa que não tem como dar certo, já que a muvuca é certa e a vantagem duvidosa. Carros de som anunciam ofertas extraordinárias, mas se esquecem de mencionar as singelas filas nos caixas cobertos por bexigas.

Lembro-me da inauguração de um grande Carrefour na minha cidade. Fomos todos (sim, os cinco: pai, mãe e três filhas) conhecer o moderno hipermercado, com vidro temperado na frente, esteira rolante, uma loucura para os padrões de Diadema.

Andamos pelos corredores, achamos algumas promoções, até que fomos enfrentar a fila. Lembro-me que no carrinho tinham duas pizzas da Sadia, que seriam nossa janta. E ficamos por horas naquela fila que não andava por causa de pizzas da Sadia. Não consigo pensar num desconto que tivesse valido a aventura.

Com meu marido foi pior: ele foi na inauguração de um mercado que havia mudado de bandeira, mas que ele frequentava desde a infância. Enquanto aguardava para comer uma fatia do enorme bolo na porta de entrada (sim, teve até bolo!), algumas pessoas passaram por ele e soltaram a pérola: “nossa, agora só vai dar playboyzinho que nem ele nesse mercado” — tudo isso porque ele estava de camiseta polo. Ao menos o bolo estava gostoso.

Na última semana saiu o veredito das inaugurações do bairro: um abriria na quarta, o outro na sexta. O espírito provinciano se animou, deixei uma listinha preparada e fiquei atenta na janela do ônibus para acompanhar os primeiros movimentos.

O da quarta era daqueles minimercados, abriu sem grande alarde. Já o da sexta, foi na versão atacado (e não é que virou atacadista mesmo?). O congestionamento era inacreditável. Ouvi boatos no ônibus que não estavam cobrando as sacolinhas, mas só nos 3 primeiros dias. Luxo total.

Não tive coragem de encarar a multidão nos primeiros dias. Programei a estreia para o domingo, depois da missa. Não devo ter sido a única. As orações eram cortadas pelas buzinas ensandecidas lá fora, de motoristas não muito felizes pela confusão no trânsito local.

O padre encerrou a missa recomendando que quem tivesse de carro rezasse um terço no caminho e tivesse muita paciência. Saí com o resto dos pedestres, muitos com sacolinhas debaixo do braço. E fomos em procissão rumo à boa nova.

Não sou um robô

Por Vanessa Henriques

Parece meio óbvio, mas atualmente tem sido necessário reafirmar isto. Sou capaz de decifrar caracteres embaçados (devem saber que sou humana pela demora, um robô faria isso muito mais rápido), selecionar os quadradinhos com a imagem de um carro ou uma placa ou simplesmente clicar num quadrinho “Não sou um robô”.

Lógico que há sempre uma tensão nos momentos que antecedem a confirmação de tal afirmação. E se eu não conseguir provar minha humanidade? Ou, pior, se minha incapacidade de provar que não sou um robô for a prova inconteste de minha alma carnal, já que um robô se passando por humano seria bem mais habilidoso?

E é claro que as máquinas se aproveitam para nos humilhar. Os ‘captchas’ são mais difíceis que uma consulta ao oftalmologista (É um ‘o’ ou um zero? Um ‘q’ ou um ‘g’?). Nos mandam clicar nos quadradinhos com placas de carro, e não há nenhum carro.

Na verdade, isso pouco importa. Fala-se tanto das maravilhas das redes sociais e dos comportamentos essencialmente humanos (ainda que a bestialidade apareça com mais frequência do que gostaríamos), mas daria tudo para ter um robô interagindo por mim em meios virtuais.

Um robô não enviaria solicitações de amizade para a pessoa errada, como eu fiz. Não curtiria textos pouco ortodoxos porque o dedo desproporcional esbarrou no botão. Jamais responderia a e-mails automáticos (e ainda encerrando com ‘beeeijo’). Não compartilharia notícias de 2015 achando que são atuais. E, principalmente, não se sentiria na obrigação de curtir as publicações daquela primeira amizade errada.

Já pensou em se livrar de todas as angústias que rondam a convivência social digital? As tardes seriam melhor gastas, as noites melhor dormidas, e o Facebook se tornaria um grande LinkedIn. Nada de textão ou close errado, as amizades estariam à salvo e os empregos também.

Com o aperfeiçoamento das máquinas, poderíamos ensinar outros truques aos robôs, como um que sinto falta neste instante: não tenho a menor ideia de como terminar este texto. Ele certamente saberia. Alguma dúvida de que sou humana?

 

Caraminholas

Por Vanessa Henriques

Dá pra contar nos dedos das duas mãos a quantidade de vezes que fiz escova em minha vida. Não tanto por ser uma ativista dos cachos desde adolescente, e mais porque é uma das coisas mais chatas que existem.

Pra quem nunca fez, eu explico: consiste em ficar por um bom tempo (põe aí no mínimo uma meia hora) com uma pessoa puxando o seu cabelo com um secador quente e barulhento na sua cabeça para, no fim, seu cabelo ficar liso por alguns dias (horas, para as menos sortudas).

Não esqueço a primeira vez que fui submetida a essa tortura cosmética. Era um salão novo, recém aberto na minha rua, e a simpática proprietária — Karlinda era seu nome — demorou horas a fio para escovar aquele cabelo virgem de alisamentos. Foram no mínimo umas duas horas de sofrimento para exibir as madeixas lisas na formatura do colégio da minha irmã.

O resultado foi, no mínimo, curioso. Sentia como se estivesse usando uma peruca (sensação que tenho até hoje), não sabia os trejeitos de cabelo liso, aquelas jogadas para o lado, passar a mão e os dedos escorrerem, rapidinho, para as pontas.

Com o tempo meu cabelo diminuiu, me acostumei com o ritual da escova e tudo fluiu com maior facilidade. Porém não posso me esquecer de uma das piores sensações da minha vida: quando vi meu cabelo molhado e liso.

Sempre fui a única pessoa com cabelo cacheado na minha casa. Minha mãe, com cabelo liso, não sabia o que fazer com ele — lembre-se que eram os anos 90 e os cachos haviam sido banidos da face da Terra depois de uma longa e tenebrosa época de penteados bufantes.

Ela conseguiu me deixar de cabelo curtinho, estilo “joãozinho”, por alguns anos, o que facilitava as coisas. Mas eu insisti para que deixasse o cabelo crescer para poder usar elásticos e presilhas como as minhas amigas. Mal sabia eu o que me esperava neste mundo de cabelos longos.

Dada a rebeldia do meu cabelo adolescente (muito mais rebelde que eu), minha mãe colocou na (minha) cabeça que eu deveria fazer um relaxamento. Era uma técnica bem comum, para deixar os cachos mais controlados. Tive que esperar para completar 12 anos se não me engano, pois muitos salões não aceitavam fazer isso em crianças (era um alerta!).

Chegado o dia, me sentei na cadeira do cabeleireiro — um dos lugares que sempre me senti mais desconfortável na vida — na esperança de ter cachos maleáveis no dia seguinte. O cabeleireiro passou um produto muito fedido no meu cabelo e falou: “Pensa que vai valer a pena, seu cabelo vai ficar lisinho!”.

Arregalei os olhos. Não era isso que eu queria. Disse que era só um relaxamento. Ele se limitou a dizer um “ixi” e iniciar as manobras evasivas. Quando vi, estava com os olhos cheios de água em frente ao espelho, com o cabelo completamente molhado e liso. Muito liso. Nunca antes na história desse cabelo tão liso.

Queriam me convencer a fazer uma escova (lembra dela? tão inofensiva) para aguardar os próximos 3 dias, que não poderia lavar o cabelo. Chorei, disse que queria ir embora, e continuei chorando em casa pelos próximos 3 dias.

No fim as coisas se ajeitaram, o cabelo relaxou (até demais) e nunca mais foi tão armado. E eu nunca mais fiz qualquer química no cabelo, só umas inofensivas escovas. Entre as perucas existentes, a de cachos ainda é a única possível.

Mais uma velinha

Mês de junho é sempre mês de festa (e não junina!) no croniquices. Este ano o blog completa 5 anos de existência. Ainda que não esteja na sua melhor fase, mantenho o croniquices como um norte e um compromisso, na esperança de dias mais leves e de boa escrita.

Pra não perder o costume, agradeço aos leitores cativos que se animam com novos textos, aos que entraram só pra dar uma olhadinha e pra quem nunca passou por aqui (bem-vindo!).

Como diz a sábia tatuagem de uma amiga, mar calmo nunca fez bom marinheiro. Por ora, comemoremos! 🙂

Grande abraço,

Vanessa

Desconcerto

Por Vanessa Henriques

Um Zé já estava no bar, com cara de satisfeito, bebericando a cerveja e aguardando uma porção. Chega o outro Zé, abatido, com cara de quem não sabe o que faz. O primeiro convida o segundo a puxar uma cadeira. Ele se desmonta todo, e já puxa o copo para si.

— Que foi, Zé?

— Ah… é essa orquestra que não tem jeito. Os moleques até que se esforçam, mas não acham o tom. E eu já tô vendo eu perder meu ordenado.

— Fala assim não, maestro! Pra tudo dá-se um jeito. Eles precisam de um incentivo. Conversa com eles.

— Já conversei, mas sei não, homem. Acho que está tudo perdido (toma um longo gole de cerveja, agora no seu próprio copo).

— Posso te dar uma dica?

— Pode, mas achei que você era o homem do conserto. Você lá entende de música, Zé?

— Entendo de harmonia. Faz assim: observe cada um dos seus alunos individualmente. Isole seus ouvidos para o resto. Encontre o desafinado e o conserte.

— Isso eu posso tentar. Mas como é que você sabe disso, Zé?

— Quando eu vejo uma máquina que não funciona, sei que tem algo errado, mas não sei onde, nem como. Tiro a lataria, e começo a observar cada pecinha. Algo vai impedir o movimento, e aí eu encontro meu ganha-pão.

— Você não quer dar um pulo comigo lá no conservatório? Acho que esse seu ouvido pode ser útil.

— Eu tinha um cliente marcado agora para a tarde… mas vamos. Gostei da ideia de virar o homem do concerto, nem que seja só por um dia.