Fenda

Por Vanessa Henriques

Da fresta da janela

vejo uma nesga de vida

 

Pássaros fazem algazarra

gritam, se movem

folhas voam

ou só balançam com o vento

o sol bate

só pra depois ir embora

 

E eu fico no meu canto

a esperar

a desejar

que a vida seja maior que essa brecha

Retalho

Por Vanessa Henriques

Onde guardar as lembranças?

No fundo da gaveta ou do coração?

Na dúvida, deixo nos dois lugares.

E quando dou de tirar a poeira, fico

feliz pelo que vivi

e às vezes triste pelo que não volta mais.

Tento reunir as fotos, bilhetinhos e papeizinhos numa só caixa

mas quando vejo, eles estão por toda parte

é inútil contê-los.

E eu também

fico por todo canto

espalhada

sem saber como ser uma.

meus retalhos (Foto: Carlos Oliveira)

Pra correr macio

Por Vanessa Henriques

Eu não fiz nada de útil na quarentena. Não visitei museus online, nem aproveitei para fazer um curso online em Harvard. Não li nenhum livro das listas de livros, nem fiz receitas mirabolantes (desculpe, mas pão não é uma delas). Não acompanhei lives nem cortei o cabelo. Assisti um ou outro seriado na Netflix, porque isso me exige muito pouco, mas pulei a lista dos 1001 filmes para ver antes de morrer. Não aprendi crochê, aquarela, ikebana ou origami. 

Não vá pensando que fiz muita coisa pela minha casa. Não esfreguei o rejunte dos azulejos, como prometi que faria. Não limpei os armários da cozinha nem o guarda-roupa. A pilha de roupa para passar cresce, se multiplica, dá filhotes, mas eu passo três leggings, lençóis e máscaras e sigo a vida.

Mas eu fiz algumas coisas, sim, claro, em sessenta dias. Escrevi matérias (fiquei devendo as crônicas), vi novela, tricotei um cachecol, fiz finalmente a receita de polenta com couve da minha mãe. Ri de incontáveis passarinhos piando na janela, pedindo mais pedacinhos de banana. Cortei incontáveis pedaços de banana, bem miudinhos. Reguei, olhei, admirei todas as plantas de casa (não são poucas). Plantei novas. Passei bem mais tempo do que o costume com meu marido, o que me faz bastante feliz.

Tempo é plantar ipês em vasos (Foto Vaness Henriques)

Eu queria ter feito muito mais, confesso. Até os itens do primeiro parágrafo, por que não? Mas falta tempo e disposição. O tempo desconfio que se esconde entre WhatsApps constantes, o trabalho com as mesmas cobranças de sempre e as duas horas necessárias para higienizar todas as compras do mercado. A disposição vai embora a cada passada de olho pelas notícias ou qualquer nesga de especulação sobre o futuro. 

O tempo pouco me pertence, odeio admitir. Eu corro atrás dele, me planejo, estrago tudo, recomeço, e ele tá sempre na minha frente, uma lebre, rindo do meu esforço de tartaruguinha. Eu achei que, estando em casa, seria minha vez de dar uma rasteira nele. Não foi dessa vez, parece.

Admito que parte dele eu gasto maquinando um futuro sem pressa, quase idílico, em que eu terei… tempo. O que falta para chegar lá? Estarei exigindo demais de mim? Minha pretensões não cabem na minha vida ou eu só continuo adiando todas elas enquanto reclamo da falta de tempo? 

Muito se falou sobre um novo mundo pós-pandemia. Concordo em partes. Adaptações serão obviamente necessárias, e a temida crise econômica virá (ou continuará, para ser mais exata). Alguma mudança individual também deve ocorrer, num efeito quase de promessa de começo de ano. 

Mas não consigo deixar de ver o mundo antigo à espreita, só aguardando para se refestelar no que chamamos de normal. Nele, eu já sei de antemão que faltará tempo. Resta saber qual será minha disposição para lidar com isso.

Ela é dançarina

Por Vanessa Henriques

Há um ano mudei de horário no trabalho. Ao invés de fazer horário comercial ou algo perto disso, passei a entrar às 17 horas e sair às 1 hora da madrugada. Já fazia esse horário ocasionalmente, mas tive a oportunidade de adotá-lo permanentemente e aceitei.

Nos primeiros dias me senti fora do universo. Enquanto todo mundo trabalhava, eu me espreguiçava na cama às 10 horas de uma terça-feira. Almoçava na hora do café da tarde de muita gente. E quando finalmente saía para trabalhar, dava de cara com os rostos felizes no metrô de quem vai para casa comer e botar um pijama.

Aos poucos o corpo foi se acostumando e vi vantagens nesse dia estendido. Minha produtividade sempre foi melhor pela manhã, então eu fui me ajustando. A casa ficava mais limpa, o almoço e a marmita da janta sempre feitos, e ainda consegui voltar a fazer exercícios. Parece bom.

Ainda continua bom, mas cheguei à conclusão que a procrastinação é que mudou muito. Num dia normal, você vai trabalhar, volta, come alguma coisa e se joga no sofá, certo? Eu já fiz isso milhares de vezes. 

Agora, experimenta acordar às 11 horas, comer alguma coisa e se jogar no sofá numa quarta-feira. Algo não encaixa. Você sabe que não pode se render ao ócio completamente, porque mais tarde terá de sair. Mas pode tirar uma soneca. Você não pode ficar inventando mil faxinas e afazeres, porque ainda tem uma jornada de 8 horas pela frente. Mas você tem todo esse tempo nas mãos. Você não pode ficar bravo com quem acordou às 6 horas e agora passa, lépido e fagueiro, do seu lado na rua, comemorando sua liberdade. Mas você pode invejar.

Ter mais tempo (ou ao menos um tempo diferente nas mãos) te obriga a pensar o que fazer com ele. Amanhã vou no pilates, vou fazer o almoço. No dia seguinte vou visitar minha avó. Na sexta vou almoçar com mozão (ele é funcionário). E por aí vai.

Para quem é afeita às listas e às obrigações autoimpostas, isso pode ser um perigo. Tem dias que tudo que a gente precisa fazer é absolutamente nada do que a sociedade considera útil, sem culpa nenhuma. Vou reservar um dia para isso, com certeza. Epa.

Ou talvez a chave seja abraçar a produtividade sem medo, planificar tudo, nem que seja a soneca, e viver essa rotina ao contrário ao máximo. Afinal, ninguém sabe quando isso vai mudar ou acabar. Pode ser amanhã ou no próximo ano.

Só queria compartilhar com vocês, seres que habitam o mundo normal, por onde ando pelas madrugadas. E pedir desculpa por aquele zap na hora errada ou por melar todas as tentativas de happy hour. 

Vocês não ouviram falar que a moda agora é almoçar? De preferência um brunch? Se quiserem companhia, estamos aí.

Vendeu-se

Por Vanessa Henriques

Alguém insiste: vamos lá na nossa rua

Eu vou

Mas na rua já não há mais nada de mim.

 

A rua da minha lembrança era ampla, com árvores, pouca gente

Era sem pressa, sem tempo, brincar de ver nuvens

Era um portão barulhento, uma porta pesada, e o alívio de estar protegida da chuva ou do perigo.

 

Agora vejo prédios altos, desajeitados na minha rua

Carros por todos os lados, subindo pelas paredes

Ela não foi feita para comportá-los.

 

E da casa, só sobrou uma fresta, um muro alto, nada mais se vê.

E de mim só sobrou essa, lembrança do que não se pode mais ser.

As aves que aqui gorjeiam

Por Vanessa Henriques

Não sei se alguém reparou, mas os sabiás já estão cantando a toda hora. Não toda hora, mas nas madrugadas, cada vez mais cedo, como algum Globo Repórter da vida já noticiou. A história é conhecida: é primavera, os sabiás querem se reproduzir, para isso precisam cantar, mas competem com o som dos carros, buzinas, panelaços, britadeiras, o moço que vende geladiiinho naturaaaaal e outros sons típicos de uma cidade grande. 

Então eles passam a cantar na madrugada, quando reinam quase absolutos. Reinavam, já que cada dia se dorme mais tarde e se acorda mais cedo — sabia que o Hora Um começa às 4 horas da manhã? (O que me leva à próxima pergunta: a que horas a Monalisa Perrone acorda?). E aí que os sabiás deram de cantar à meia noite, às 2 horas, às 3 horas, ao meio-dia. 

Como eu sei de tudo isso? Bom, para começar, meu trabalho doido® me faz ficar no trabalho até 2 horas. Antes disso, meu marido vai dormir, lá para meia noite, e me diz aflito que os sabiás estão cantando. Minha irmã, que amamenta de madrugada minha sobrinha, manda um zap: cantaram às 3 horas. O que só me faz concluir que os sabiás continuam cantando até a Monalisa ficar prontinha para entrar no ar.

Quando eu tinha uma vida regrada, com horários considerados cristãos, o cantar dos sabiás me incomodava. Acordava de madrugada para ir ao banheiro e, ao voltar para a cama, me irritava com os ‘firu-fiu-fiu-fiu’ a plenos pulmões — ainda que eles nunca tenham me impedido de voltar a dormir.

Firu-fiu-fiu-fiu (Foto: Carlos Oliveira)

Hoje eu gosto de ouvir os sabiás, ainda que eles me tragam uma certa solidão. Eu também ando por aí solta na madrugada, na hora em que era para estar quietinha nas cobertas. Olho para as poucas janelas com luzes acesas e busco companheiros: não para acasalar, mas para perguntar por que você está acordado nessa hora tão boa de dormir? Fixo em um ponto, à espera de uma luz que se apague, ufa, foi só tomar uma água e voltou a dormir. 

Tenho vontade de acordar meu marido para falar sobre os sabiás. Mas ele dorme tão silenciosamente, como se fosse um passarinho… deixo-o em paz. Tenho vontade de conversar com a Lua, mas isso parece tão antiquado e juvenil. 

Então só me resta abrir a janela e conversar com o sabiá. Dizer que eu também me sinto cada vez mais espremida pela falta de silêncio. Que eu tento me convencer que está tudo bem em viver ao avesso do mundo, mas que cada dia me sinto mais do avesso. De como esse nó na garganta deveria desatar num canto como o dele.

Vamos combinar uma coisa, amigo? Leve a sua melodia mais bonita para a minha sobrinha, uma que faça a mãe dela também de você se lembrar. Depois, embale meu marido em sonhos com asas. E não se esqueça de ajudar a Monalisa a acordar. 

Conto com sua companhia ao menos nessa primavera, e espero que até você partir eu já esteja pronta para piar.

Para aceitá-lo continue na linha após o sinal [croniquices, 7]

Que viva la telefonía
En todas sus variantes
(Jorge Drexler)

Por Vanessa Henriques

Meu marido tem um celular com jogo da cobrinha, que faz ligação e troca SMS, e olhe lá. Quando o conheci, ele não usava nem mesmo esse celular. No nosso primeiro encontro, o flagrei saindo de uma cabine de orelhão em frente ao shopping. Ou esse cara era muito especial ou ia dar trabalho. 

Em 2010, quando isso tudo começou, a vida era um tiquinho mais simples. Não tinha WhatsApp, smartphone em abundância ou Instagram. A gente se ligava, trocava uns SMS, tínhamos a sorte de trabalhar juntos, e tudo se acertou. 

Até hoje as pessoas me perguntam como é que nosso relacionamento funciona, como não trocamos mensagens a cada hora, como nós aguentamos guardar o que aconteceu no dia para contar mais tarde. E eu digo que sempre foi assim, e que tudo funciona bem — ainda que tenha me sentido idiota nas poucas vezes em que tirei uma foto, anexei e mandei por email e mandei um SMS dizendo “olhe seu email!”.

Na verdade o que eu deveria dizer é que essa é uma das melhores características do meu marido. Ele odeia celular na mesa enquanto comemos, e me faz lembrar o quanto estou sendo ridícula enquanto ando pela casa com o aparelho a tiracolo. Ele odeia o barulho de novas mensagens, ou aquela fatídica tremida do “silencioso”. Ele não recorre ao cacoete que todos nós desenvolvemos de ficar mexendo no celular quando se está no elevador, no metrô ou almoçando sozinho. 

Baseado em fatos reais (Foto: Vanessa Henriques)

E, o mais importante, ele parece muito mais livre do que eu e muitos à minha volta. Sem notificação de WhatsApp, sem push de notícia, sem curtida de rede social, sem essa tensão constante. 

Não é porque é meu marido não, mas é porque ele está certo. Você já reparou o quanto andamos meio ridículos? Essa cervical torta, os olhos esbugalhados, a constante falta de atenção aos que estão tentando conversar conosco e um estado de euforia e letargia que se alternam.

Minha irmã diz que ele é o verdadeiro hipster, já antecipando a moda do dumbphone (celular simples, oposto do smartphone) que tem tudo para voltar — tão hipster que nem se toca de sua vanguarda. Espero que ela tenha razão, e que possamos testemunhar uma era pós-smartphone.

Agora se essa era nova era significar que vamos usar mais relógios inteligentes, óculos com conexão à internet, geladeiras inteligentes ou qualquer outra parafernália que nos faça ficar mais vidrados, aí não vai ter jeito. Vamos andar tão abobalhados por aí que até os primatas vão tirar sarro de nós. 

E aos que me perguntam quando eu vou convencê-lo a usar um smartphone, só tenho uma resposta: prefiro um homem que anda com cartão telefônico na carteira.

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“Queria lembrar uma boa história, uma que combinasse com o enredo do livro e de nossas vidas. História que guardamos só para nós, em nossa caixinha de segredos, ou daquelas que contamos na mesa do jantar, entre risadas e goles de vinho.” A você, 2 de setembro de 2015

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[croniquices, 7] Este texto integra as comemorações dos 7 anos do blog

A vida é um moinho, dizem. Aperta e afrouxa, sossega e desinquieta.

Por isso selecionei alguns textos que me tocaram nessa volta ao passado e resolvi dar uma cara de futuro para eles. A inspiração vem em trechos, o presente vem completo. Espero que apreciem e se reencontrem também.

As caixas guardam de tudo [croniquices, 7]

O que o espírito pretende alcançar é o seu próprio conceito;
mas ele mesmo a si o oculta, é orgulhoso
e sente plena fruição nesta alienação de si próprio.
(Georg Wilhelm Friedrich Hegel)

Por Vanessa Henriques

Outro dia, o comichão para voltar a estudar atacou com tudo. Pior, veio acompanhado de ação, e eu me aventurei num curso online. Fiz todas as atividades que estavam disponíveis em pouco tempo, e depois comecei a pensar no que precisava retomar.

Tenho sempre a vívida sensação de que, apesar de ter estudado por anos a fio certos assuntos, eu não absorvi nada daquilo, e preciso retomar, relembrar e até mesmo reaprender. 

Por um lado isso é verdade, já que nossa memória RAM é finita e não precisa ficar guardando detalhes da revolução francesa. Mas não deixa também de ser uma manifestação da minha insegurança achar que eu não absorvi absolutamente nada do que aprendi.

Quando fui fuçar em alguns materiais de física a sensação foi mais desesperadora. Agora eu estaria indo ao encontro dos meus amigos íntimos, Marx, Weber, Kant e até mesmo Hegel. Tudo ficaria bem.

Eu disse Hegel?! Sim, eu disse Hegel. Resolvi começar revendo uma das matérias mais difíceis que cursei na faculdade. Eram páginas e páginas de anotações sobre o espírito humano, a dialética, o senhor é escravo e senhor, o escravo é senhor e escravo — e acho que posso parar por aqui.

Um texto, muitas leituras (Foto: Vanessa Henriques)

Claramente 4 anos de faculdade e mais uns 8 de formada não foram suficientes para entender Hegel. Sinto que preciso rever o a priori kantiano e sua crítica à razão pura, e recorro a um daqueles manuais genéricos da história da filosofia. 

Ao folhear o índice, bate a certeza de que realmente eu esqueci o pouco que aprendi, e tem todo um rol de autores que eu nem sequer tive a curiosidade de jogar na Wikipédia. David Hume sei que nunca li. Erasmo de Roterdã no máximo uma xerox de um capítulo do Elogio da Loucura (me parece familiar agora). John Locke era personagem do Lost, não? O primeiro nome do Hegel é Georg??? 

Essa é toda a beleza e a perversidade do conhecimento. Quanto mais se estuda, mais se tem de estudar. Quanto mais tempo ficou parado, mais há a recuperar. Devo me encher de esperança? Ou desistir diante da tarefa que, a cada ano que passa, parece mais hercúlea? E tome dialética!

As caixas ou pastas guardaram tudo que eu achei que era importante, que aprendi ou que deveria ter aprendido. Mais do que deixá-las num cantinho, de vez em quando vale o choque de reabri-las e descobrir o que partiu e o que ficou. 

Quem se revisita, aprende toda vez. Ou só é muito sádico, vai saber. Já diria um conhecido meu que o espírito é uma luta dura contra si mesmo. 

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“Consegui o espaço que queria, a custa de algum desapego e muitas recordações. Construí um mosaico de aulas, professores, trabalhos e provas que, de alguma maneira, me formaram como pessoa. Dizem que os anos de faculdade são os melhores de nossas vidas. Eu discordo, respeitosamente. Os anos em si não são tão gloriosos quanto se pode pensar, mas o que realmente fica conosco é puro ouro.” Entre caixas e beijos, 9 de abril de 2014

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[croniquices, 7] Este texto integra as comemorações dos 7 anos do blog

A vida é um moinho, dizem. Aperta e afrouxa, sossega e desinquieta.

Por isso selecionei alguns textos que me tocaram nessa volta ao passado e resolvi dar uma cara de futuro para eles. A inspiração vem em trechos, o presente vem completo. Espero que apreciem e se reencontrem também.

Eu já fiz 30 [croniquices, 7]

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.
(Mia Couto)

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retrato de lado
retrato de frente
de mim me faça
ficar diferente
(Paulo Leminski)

Por Vanessa Henriques

Não são poucos os sinais de que estamos envelhecendo. Começa com uma história que parecia recente, mas que na verdade ocorreu há 10 anos. Um joelho que começa a doer na hora de descer do ônibus. Lembrar de uma pessoa que você tinha esquecido completamente da existência. Perceber que uma preocupação antiga já não habita seus pensamentos.

A idade nunca me afligiu —acho inclusive um pouco chata essa coisa de mentir idade, dizer que queria voltar no tempo, que tem a alma jovem ou coisa que o valha. Deve ter contribuído para isso o fato de eu ser a irmã caçula, então sempre pude tirar sarro nos aniversários dos outros e emendar: “se eu sou velha, imagina você!”

E também consigo sentir os benefícios do tempo, especialmente no que diz respeito ao espírito. Não tenho o menor interesse em voltar ao tormento da adolescência ou à integração forçada dos primeiros anos de faculdade, para ficar em dois exemplos. Toda fase tem suas alegrias e agruras, mas o passo seguinte sempre traz a tranquilidade de quem já passou por isso. 

Mas percebi nos últimos tempos algo que ficou no meio do caminho, que eu estava inclusive negligenciando: minha autoimagem. Perdida e entretida entre pensamentos e conjecturas, eu parei de me olhar — para ser mais precisa, parei de me reconhecer no espelho.

As marcas do tempo (Foto: Vanessa Henriques)

Começa naquela roupa que você usa sempre e de repente desenvolve uma repulsa. Aí você abre o guarda-roupa e vê que não gosta particularmente de nada que está ali. O corte de cabelo não agrada, mas também não se sente particularmente inspirada para mudar. A maquiagem está encostada num canto do banheiro, porque todo dia você está cansada demais para tentar dominar o delineado gatinho.

Li outro dia um tuíte que me tocou porque definiu exatamente o que estava sentido. A Carla Soares, do @outracozinha, mandou na lata: “Às vezes acho que a imagem mental que faço de mim mesma parou de corresponder a como agora eu pareço.”

É isso. Eu posso me ver hoje muito mais madura do que há alguns anos, consigo reconhecer meus méritos e minhas falhas, tudo que ficou para trás e o que ainda preciso encarar daqui em diante. Mas na minha cabeça eu ainda sou uma jovem, imagina, um bebê recém saído da faculdade. 

Imagino que quem, assim como eu, vive com os neurônios fritando em alta voltagem, isso seja comum. Nunca fui muito de me olhar no espelho, e há claros problemas de autoestima que não foram resolvidos nesse processo, o que não ajuda. Pode ser também um mal dos solitários.

Só que nosso corpo é o veículo de toda essa aventura cósmica que chamamos de vida. Quem nos ama, quem nos odeia, o que produzimos, como nos divertimos, tudo isso envolve esse avatar. Eu posso achar que estou arrasando, supermadura, mas na verdade o meu amigo está vendo uma pessoa incrível mas que usa a mesma combinação de roupas todo dia. E aí?

E daí? Claro que eu não estou pregando que todo mundo vá se embonecar sem querer, ou que vá tentar se igualar à sua imagem mental forçando uma realidade que já passou ou que não tenha a ver com você em nome do “apropriado para a idade”. Mas me parece uma fuga, tal qual algo facilmente julgável como uma aplicação de botox, se esconder nessa ilusão, e se negar de certa forma.  

Então foi preciso encarar o espelho uma, duas, muitas vezes, e começar a acertar os ponteiros. Rever o guarda-roupa e as expectativas. Lembrar o que custou para chegar até aqui. Encarar um corretivo nas olheiras, por que não, também faz parte. Olhar por dentro, olhar por fora. É tudo a mesma coisa. E muda todo dia.

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“Mas não nos separamos, como se um muro se erguesse entre nós. Gosto de pensar nessa transição como uma ponte: você me diz o que tem aí do outro lado, e eu te lembro do que tem por aqui. E assim, seguimos juntas nessa estrada da vida — que deve ser mais uma estrada, ainda que sinuosa, do que uma corrida de obstáculos.” Trinta, 22 de julho de 2014

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[croniquices, 7] Este texto integra as comemorações dos 7 anos do blog

A vida é um moinho, dizem. Aperta e afrouxa, sossega e desinquieta.

Por isso selecionei alguns textos que me tocaram nessa volta ao passado e resolvi dar uma cara de futuro para eles. A inspiração vem em trechos, o presente vem completo. Espero que apreciem e se reencontrem também.

Eu ainda tenho vergonha de fazer poesia [croniquices, 7]

O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.

Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.
(Mia Couto)

Por Vanessa Henriques

Na minha lista imaginária de coisas vergonhosas e pedantes para se chamar está: em segundo, escritora. Em primeiro, poeta. Curiosamente, já fiz/faço cosplay das duas funções.

Eu não sei quando eu comecei a gostar de poesia (acho que ninguém sabe isso aliás). Começou provavelmente com livros paradidáticos da escola, que eu lia sem pesar, ao contrário dos colegas. No pré-vestibular, me lembro de sentar nos cantos da escola e ler A Rosa do Povo, do Drummond, aos pouquinhos, meio gostando, meio sem entender. Minha irmã já havia me apresentado Manuel Bandeira e o próprio Drummond.

E o gosto pela poesia continuou, ainda que eu não seja de explorar novos autores. Gosto de três tipos de poetas, se for possível classificá-los: os que dão porrada (Álvaro de Campos, Manuel Bandeira), os que encantam pela delicadeza (Drummond, Mia Couto, Manuel de Barros) e os que não perdem o humor (Mario Quintana, Paulo Leminski).

A minha poesia ideal teria um pouco de cada uma dessas qualidades, o que faria de mim a melhor poetisa de todos os tempos. Mas não sou uma, não foi assim.

Uma estante, muitos amores (Foto: Vanessa Henriques)

Só que nada me impede de cometer uma poesia, assim, num ato de coragem numa tarde de domingo. Você escreve, olha, acha simpática, e mete o dedo no botão de publicar. Depois lida com a vergonha, o suadouro e os calafrios.

Não precisava ser assim, penso eu. As palavras estão aí esperando para serem tiradas para dançar. Não impõem regra nem padrão mínimo de qualidade. Se deu certo ótimo, se não deu, tudo bem, volte mais tarde.

Tanto que tenho uma lembrança muito antiga (e que permaneceu por causa da piada que se seguiu) de sentar na cama da minha mãe, caderninho a postos, e escrever uma música. Depois, meio envergonhada, mostrei minha composição para minha irmã. Eu não lembro se ela me encorajou ou se riu, mas o fato é que nunca esquecemos aquela rima pobre: Eu olho pro céu/eu olho pro mar/essa brisa bonita/que me faz sonhar.

Que desprendimento bom, sentar ali e dizer: hoje vou fazer uma música — que nada mais é do que poesia musicada. São as coisas que a infância leva e que infelizmente são difíceis de resgatar. No lugar dela ficou uma expectativa de excelência, que nada tem a ver com o exercício da escrita.

Mas quando a inspiração aparece, eu volto para a cama da minha mãe, sozinha com meu caderno, e deixo a brisa entrar. Se me encho de coragem, ela vem parar aqui. E por um tempinho, a vida fica mais interessante.

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“Estaria lendo ou sonhando? Se for sonho, ele é meu ou do poeta que embala esses pensamentos?” Tarde de domingo, 12 de dezembro de 2013

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[croniquices, 7] Este texto integra as comemorações dos 7 anos do blog

A vida é um moinho, dizem. Aperta e afrouxa, sossega e desinquieta.

Por isso selecionei alguns textos que me tocaram nessa volta ao passado e resolvi dar uma cara de futuro para eles. A inspiração vem em trechos, o presente vem completo. Espero que apreciem e se reencontrem também.