O lobby do hobby

Por Vanessa Henriques

Imagino que não seja só eu que esteja me sentindo constantemente cansada e assoberbada. Muitos amigos relatam o mesmo sentimento: você trabalha a semana toda, pega trânsito e/ou metrô lotado, posta uns stories, e quando o tão desejado fim de semana chega você está tão exausto que não consegue fazer nada além de ficar no sofá vendo Netflix.

Qualquer convite para festinha de aniversário parece um tormento, e todos os planos de “ser feliz e viver” que você arquitetou a semana toda se transformam em “quando terei tempo para deitar na minha cama e encarar o teto?”. A depressão do fim do domingo já nem é mais tão forte, afinal ela virou uma constante.

Mas também há muitas boas (?) almas no mundo tentando te colocar para cima. A Marie Kondo fala para você se livrar das tralhas, que tudo dará certo. O Buzzfeed dá 10 dicas para te energizar este mês — que inclui desde praticar ioga até fazer uma máscara de argila para o rosto. No Pinterest você checa uma nova tendência de DIY (faça você mesmo). Aquela influencer bacana no Instagram posta fotos de seu novo passatempo. E se tudo der errado, tem sempre alguém para indicar as melhores séries do mês para ver enquanto vegeta no sofá.

O inferno está cheio de boas intenções, diz o ditado. Enquanto nos estimulam a fazer atividades ao ar livre, cozinhar, bordar ou desenhar, no fundo colocam mais uma pressão para cima dos nosso ombros. Já não basta trabalhar, socializar, postar fotos nas redes e casar. É preciso estar zen, conectada com o seu corpo e com sua alma de artista.

Abrimos nosso coração e vamos lá retomar a sede por trabalhos manuais, abandonada lá pela 7ª série. Botamos esses dedinhos tão acostumados a um teclado para mexer com cola e tesoura (sem ponta) em busca da felicidade perdida. Antes, claro, idealizamos o melhor projeto para nos reconectar com o nosso verdadeiro eu, usando como base as habilidades artísticas do próximo.

Só que cada projeto manual xexelento nos lembra de mais um talento que não temos. Cada meditação sem sucesso nos deixa mais pilhados. Os desenhos de boneco-palito enfeiam nossos melhores caderninhos. Eu nem vou entrar no mérito da arrumação. E no fim terminamos mais deprimidos do que antes.

Por isso que sempre tremo diante da pergunta “qual o seu hobby?”. Antes ela era feita só em ocasiões esdrúxulas, como em cursos de idiomas ou entrevistas de emprego. Agora o hobby é mais uma coisa que precisamos desenvolver depois que descobrimos que não dá para trabalhar com o que se gosta (afinal se chama trabalho).

E a felicidade, para onde foi?

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Pelo cano


“Nunca me acertei bem com os padres, os críticos e os canudinhos de refresco”

Mario Quintana

Por Vanessa Henriques

Sei que estou atrasada, mas não gostaria de me furtar à grande questão que anda chacoalhando esse século 21. Não me refiro à ascensão da direita, à insatisfação dos millennials ou ao surrupio de todos os direitos trabalhistas e previdenciários conhecidos. Falo, claro, do canudo de plástico.

Para quem esteve em Marte nos últimos meses, resumo. Os canudos plásticos foram condenados no tribunal ambiental como o lixo plástico mais danoso dos sete mares. Seriam responsáveis por toda a porcaria que vemos boiando em cursos d’água por aí e — a acusação mais grave — seriam potenciais assassinos de tartarugas.

Eu sempre achei canudo uma grande inutilidade. Sua maior função, para mim, é agir como mexedor de sucos mais espumosos (como de abacaxi). É um capricho tolo e sem sentido na maior parte do tempo. Mas daí a condenar o canudo como o principal (e único!) culpado de todos os crimes ambientais é demais para mim.

Só que não precisamos apelar à razão para entrar nesse debate. Basta pensar na natureza da humanidade — porca e preguiçosa — e já teremos uma ideia dos rumos da coisa.

Há muitas pessoas que amam canudos, não conseguem abrir mão deles. Tudo bem. Elas podem optar por canudos de inox, de uso pessoal e intransferível, acompanhado por um charmoso estojo e uma escova para higienizá-lo.

Parece ótimo, um canudo individual, lavável, que você leva contigo, dura a vida toda, sem contraindicação. Exceto que é um canudo individual, que depende unicamente de você para ficar limpo e disponível para novos bebericos.

Pensa só: você vai a um convescote, pede um suco de laranja, tira seu canudo inox do estojo, vira sensação entre os comensais. Pega um guardanapo, dá uma secada no canudo, e joga na bolsa. Daqui a uns dias, você vai na feira e bate aquela vontade de tomar um caldo de cana. É óbvio que você não se lembrou de tirar o canudo da bolsa. Ele está lá, com resquícios de baba e suco de laranja. Você pensa: “é tudo meu mesmo!” e vai adiante.

Repita a operação quantas vezes for necessário até tomar vergonha na cara e lavar o canudo — e não pode esquecer de deixar secando e colocar de volta na bolsa.

Meu ponto é muito simples: o ser humano não tem maturidade para cuidar do canudo próprio. Nossas casas estão cheias de coisas a fazer, as bolsas lotadas de comprovantes de débito e a nossa mente cheia de problemas (lembra da previdência?). Quem quer adicionar à sua lista de pendências a obrigação de lavar um canudo com uma escovinha?

Restam então algumas opções. A tendência natural, que já podemos ver por aí, é começar a acreditar nos canudos de papel, biodegradáveis, feitos de casca de mamão, que se decompõem antes mesmo do garçom chegar à lixeira (depois você se explica sobre os eucaliptais).

Mas eu tenho uma sugestão para salvar o canudo de inox. A única motivação de um adulto saudável é transformar um ato rotineiro e extremamente desagradável em um stories no Instagram. Influencers de limpeza de canudos precisam começar a trabalhar já pela glamourização da escovinha. Aguardo ansiosa pelas lives na pia da cozinha mostrando o melhor detergente biodegradável para a função.

Só assim as tartarugas terão alguma chance. Aí só vão precisar desviar das garrafas PET, do esgoto, da espuma e todas as outras delícias que moram no mar.

Antiescrita

Por Vanessa Henriques

Agora sou paga para brigar com as palavras
Ressecar textos
Defumar frases
Maldizer letras
Apelar para sinônimos imperfeitos (como se os perfeitos existissem)

Acho que nunca escrevi tão mal
Ou desescrevi
E ainda assim as letras saltam as rotativas
E vão parar na sua mão
Como nenhum outro texto bem gestado conseguiu

Ainda bem que ninguém sabe
Que sou eu a carrasca das orações subordinadas substantivas subjetivas
Mas elas me punem
Ao virem me inquirir nos meus sonhos

Sem compromisso

Por Vanessa Henriques

Hoje é dia 11, e eu ainda não tenho uma agenda de 2019. Eu tentei, eu juro, mas está complicado. Eu tenho alguns requisitos, confesso, mas não acho que sejam inatingíveis. Eu exijo que ela seja pequena, leve, e que tenha um espacinho para cada dia. Fora, isso, tudo vale, nem preço baixo mais eu tô exigindo.  

Em um momento de desespero, pensei em adquirir uma agenda gigante do ursinho Pooh (ex-Puff), que pesaria uns 3kg a mais na minha bolsa, mas me controlei. Em um impulso contrário, quase comprei no camelô uma agenda universal com uma capa de couro vagabunda e um ‘Agenda’ em dourado berrante na capa. Consegui resistir.

Aí eu fui ser digital, moderna. Já ando com a porcaria do celular na mão o dia todo mesmo, que diferença faz? Já que o Google já sabe tudo da minha vida mesmo, o que custa dizer para ele qual o horário da minha depilação na virilha? O problema é que só tenho dois modos: ou eu esqueço de olhar a agenda eletrônica, ou eu me irrito com os horários aleatórios que ela resolve apitar para me avisar de algum compromisso.

Lembra das papelarias? Aqueles lugares organizados, coloridos, um sonho de infância, com cheiro de papel e de borrachas de plástico (aquelas japonesas, que não borram nada e dão uma dó danada de usar). Elas estão cada vez mais raras. Muitas faliram, outras diminuíram, e o fato é que de cada 5 visitas à papelaria, 4 são malsucedidas.

Vamos então aos lugares que faliram as papelarias: lojas enormes de departamento ou papelarias desproporcionais — na qual não há um balcão com um tiozinho simpático que vende lápis separadamente e ainda embrulha em papel rosado. Há todas as versões da agenda do ursinho Pooh (com glitter, com adesivos, com cheiro de mel), e nada mais simples que isso. Era só um caderninho, pessoal. Não era para ser tão difícil.

O algoritmo do Google, que já sacou que eu tô procurando uma agenda para comprar, me sugere o “método bullet journal”. Percebo que todos à minha volta faziam BuJo (pros íntimos), e só eu não sabia. O método seria usado para “acompanhar o passado, organizar o presente e planejar o futuro”, e só exigiria um caderno e uma caneta. Seria minha salvação?

Não exatamente. Descobri que o método é um pouco mais complicado que isso, e a coisa do papel e caneta não condiz com as imagens: cadernos afrescurados, com uma caligrafia saída de lousa de cafeteria hipster, cheio de listas de tarefas, metas a serem cumpridas no dia, mês, ano. Olha, a época de resoluções de Ano Novo já foi, e não tô atrás de mais assunto para a terapia não, obrigada. Era só um lugar para anotar o horário do pilates.

Por isso peço a todos encarecidamente que não me chamem para nenhum aniversário, almoço ou batizado, não me peçam para ajudar na mudança ou para ir conhecer a casa nova e, principalmente, não me recordem que eu preciso marcar dentista, ginecologista e pedicure. É provisório. Eu acho. Nos falamos em dezembro — se eu me lembrar.  

Aqui tá quente, aqui tá frio

Por Vanessa Henriques

Sempre comento com meu marido que gostaria de viver num desses países gelados, com nevascas terríveis capazes de cancelar a ida ao trabalho e à escola. Como uma boa espectadora de filmes hollywoodianos água-com-açúcar, me imagino numa casa com calefação, comendo marshmallows e tomando chocolate quente enquanto vejo Vídeo Show.

Meu marido sempre rebate, com seu desespero tropical, minha visão idílica, lembrando que a neve traz sujeira, transtornos, correntes nos pneus dos carros e — o que para ele seria a visão do apocalipse — ela só cai em dias de muito frio. Ou seja, ele desliga sem dó minha calefação e muda a TV para a GloboNews.

Apesar do nosso Natal ser cheio de neve e patinação no gelo de regata, a realidade é comer peru no calor de 25ºC à meia-noite (para os sortudos) e já engatar um janeiro de manhãs ensolaradas e chuvas torrenciais no fim da tarde. Nada de errado quando se está na praia, na fazenda ou numa casinha de sapê.

Mas é claro que nós estamos no escritório, no metrô ou, no pior dos cenários, num ônibus sem ar-condicionado às 3 da tarde. Um céu azul despontou hoje logo cedo, depois de um fim de semana chuvoso, convidando para atividades aquático-sociais imperdíveis. Só que tivemos que dizer não ao sol, à piscina, à praia, para vir trabalhar (no ar-condicionado, se você for sortudo).

Ora, me parece óbvio que, assim como os dias de nevasca, deveríamos ter mais reverência com o solão de rachar o coco®. Não é direito trabalhar em dias assim. Botar uma calça (argh), uma brusinha de trabalho e uma bolsa a tiracolo (e não um cooler de cerveja) é realmente ir contra a nossa natureza.

Lógico que teríamos que fazer uma equação para isso funcionar, já que dias ensolarados abundam abaixo do Equador. Mas um diazinho só por mês, que tal? No Japão eles param para ver as cerejeiras, por que nós não podemos tirar uma folguinha para apreciar nossos rios, mares e piscinas infláveis?

Só não vamos demorar demais, afinal o verão logo logo acaba e teremos de enfrentar nevascas de 21ºC. Preparem as correntes.

 

Trabalho doido

Por Vanessa Henriques

Nos últimos 2 meses estive envolvida com o que minha avó cunhou graciosamente de trabalho doido. Foram semanas de angústias, promessas vazias, trocas de função e de escala (quem dá plantão entende o drama) e nenhuma previsibilidade. Isso explica (mas não justifica) minha ausência por aqui.

Mas o comentário de minha velha não foi por causa de nada disso. Ela estava inconformada com meu horário, das 18 às 2h da madrugada. Eu levantei os ombros, resignada, como quem diz: que escolha me resta?

Eis que meu cunhado desferiu o golpe de mestre. “No tempo da feira, a que horas a senhora começava a trabalhar?”

Pois é. Essa mesma vozinha trabalhou anos em feira livre. Meu avô tinha uma banca de verduras e eles acordavam, segundo ela, “umas 3 da manhã”.

Estava aberta a porteira. Meu pai, que trabalhou a vida toda com comércio, quer coisa mais doida que isso? Trabalhar 363 dias por ano, e acordar às 4h da madrugada não configura trabalho doido? Eu penso que sim.

E minha mãe, que é dona de casa? Acorda cedo, providencia no mínimo 4 refeições por dia, limpa a casa toda, passa roupa, lembra todo mundo de tudo. Sem folga nem férias. Me parece bem doido.

Meu marido e muitos amigos professores trabalham manhã, tarde e noite, às vezes em escolas diferentes. Fazem e corrigem provas de madrugada. E todo mundo só reclama, com inveja descarada, dos 2 meses de férias deles. Isso é coisa que se faça?

Não preciso me alongar aqui, acho que já deu para entender o meu ponto.

O horário é horrível, não nego, mas eu fico no ar condicionado, sentadinha, e ainda volto de uber. O maldito trabalho intelectual desgraça a cabeça e o corpo, mas se você trabalhar das 9 às 18 horas, ninguém desconfia.

Então vamos combinar uma coisa? Trabalho deixa todo mundo doido mesmo. Quem tiver uma solução para os boletos, estamos aceitando sugestões. Só não demorem muito, por favor.

 

 

Pinta com o meu paint

Por Vanessa Henriques

Pude ver o brilho nos olhos do estagiário esmorecer diante da constatação: ele teria que usar o Paint, esse programa tão útil quanto inofensivo, para fazer seu trabalho. Mas já existem programas mais modernos, ele clamava. Eu não pude compartilhar de seu desespero, afinal sou uma admiradora do Paint desde que ele atendia por Paintbrush.

Se você é mais ou menos da minha época (algo me diz que você é), deve ter alguma lembrança tenra de infância usando e abusando do seu Windows 95 para fazer desenhos descolados no Paint. Tal qual Bansky, você escolhia a hora certa de usar o spray. Como um Romero Britto em formação, você forçava a barra para usar o máximo de cores que o programa oferecia. Mais habilidoso que um Vik Muniz, você era capaz de decifrar os garranchos que seus amigos faziam. Bons tempos.

Mas o Paintbrush cresceu e eu também. Ficou minimalista, perdeu a cara de editor de imagens da vovó, mas continuou esbanjando simpatia e funcionalidade (talvez como eu também?). Ele tinha tudo para cair no ostracismo junto com o Bloco de Notas e o Campo Minado, mas não foi bem isso que aconteceu.

Devo dizer que eu estava errada quando vacilei em rechear meu LinkedIn com a seguinte habilidade: Paint avançado. Ele já garantiu o meu diferencial em mais de um emprego.

No estágio eu comecei a brilhar simulando como deveriam ficar as telas do sistema que eu dava suporte (pasme, o Paint já ajudou e impressionou a TI da maior universidade deste país). Depois, ele me ajudava em pedidos de arte para designers (era sempre mais fácil já mandar o mais mastigado possível). Hoje eu uso como suporte para alterar imagens no WordPress.

Imagem cortada no Paint #inception

É claro que o estagiário estava certo: já existem mil programas melhores e mais completos que desempenham as mesmas funções que o Paint. Mas não deixei de ficar desconfortável com a absoluta falta de intimidade que ele exibia com um programa que tem, sei lá, umas cinco funções no máximo.

Foi irresistível não fazer a comparação com a minha situação. Eu nunca fui brilhante, ligada em novidades, habilidosa na vida (e na computação). Eu sou como o Paint: vou levando, dou para o gasto, me viro com o que tenho, mas claramente não sou o melhor que o mercado oferece.

Isso pode ser uma coisa boa ou ruim, tudo depende do referencial — no caso, o grau de habilidade computacional do seu chefe. Pouco adianta jogar ouro aos porcos, como sinto que acontecerá com o meu colega. Mas não deixa de ser triste porque ninguém te exige muito mais do que aquilo que você já sabe (e que é extremamente simples).

Depois de 32 anos, a Microsoft acabou com o Paint. Esta semana eu fiz 30. Substituída pelo estagiário eu já fui. Talvez seja bom ir atrás de um cursinho de Photoshop. Ou melhorar minhas habilidades com o Campo Minado. Para garantir.