Do tempo que se amarrava cachorro com lingüiça

Por Vanessa Henriques

Quando finalmente tinha me acostumado com a ideia, a idéia voltou. Havia feito um comentário com minha irmã, no dia anterior à notícia de que o novo acordo seria adiado, de que deste ano não passava: teria que aprender todas as regras da nova ortografia.

Essa constatação veio na marca do pênalti, obviamente. Para quê aprender todas as regras hoje quando você pode enrolar até 2013? E foi o que eu fiz até dezembro de 2012, quando comprei uma agenda para o ano seguinte. Fui anotar, na data de aniversário de uma amiga, algumas ‘ideias’ de presentes. Foi aí que caiu a ficha que o acordo estava para entrar em vigor.

Desde que essa história de reforma ortográfica começou, em 2008, fiquei apreensiva. Lembrei imediatamente de meu pai, que, passados 41 anos da última reforma ortográfica, ainda escreve agosto com acento circunflexo. E por que ele deveria parar de escrever? Faz todo sentido foneticamente, além do charme que esse acento acrescenta à escrita.

Resolvi que seria uma rebelde. Escreveria idéia, lingüiça, vôo, pára e pêra. Infelizmente, não seria tão simples assim. No trabalho, na faculdade, nos jornais, todos adotavam aos poucos a nova ortografia. E eu ficava cada vez mais sozinha com meu trema e meus acentos diferenciais.

O trema, aliás, travava uma batalha há anos para reafirmar sua existência. Não sei quem começou uma lenda urbana que previa a morte do trema. E por anos, ao escrever ‘tranqüilo’ ouvia sempre um “mas não existe mais trema!”. Existe sim, tanto que o acordo serviu para, ao menos, sepultá-lo de forma elegante.

Até o Word se rendeu, e aproveitou para tirar um acento que não deixou de existir: o que vem ao final de verbos conjugados, como em ‘deixá-la’. Será uma dica do que vem por aí? A Microsoft estaria mais informada do que todos nós?

Se o acordo vai entrar em vigor mesmo — dizem as más línguas que o adiamento seria um princípio do fim — eu não sei. Se esse não entrar, outro entrará. Vou com certeza reclamar, espernear, discordar das mudanças, assim como outros farão. Afinal, é muito difícil mudar um hábito tão arraigado como a escrita com a canetada de um decreto.

E se o tempo cura feridas, como dizem, curará mais essa, bastante superficial. E a recompensa virá lá na frente, quando num momento de nostalgia me pegar lendo cartas e bilhetes antigos, ou mesmo uma dedicatória em um livro, e reencontrar meus esquecidos amigos.

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