Mola

Por Vanessa Henriques

Lembro-me de ouvir, com algum espanto, meu professor de física dizer que alguns materiais (a maioria deles, aliás), se contrai e expande devido ao calor. O espanto veio de pensar que alguns arranha céus, cuja estrutura era toda de aço, também estão sujeitos a essas variações. Uma fórmula para calcular esse fenômeno nos foi ensinada, e saímos por aí sem lembrar muito desse detalhe.

O que faltou ao meu velho professor de física — que não era tão velho assim, mas as lembranças do tempo de escola estão cada vez mais distantes — foi um pouco mais de detalhamento. Faltou dizer que o ser humano era um desses materiais, que pode andar por aí contraído e expandido, e que não há fórmula no mundo para calcular isso.

Não me refiro às variações climáticas, que fazem com que andemos por aí encolhidos de frio no inverno (ou numa frente fria fora de época) ou desesperados no verão, quando o mínimo contato de coxa com coxa faz os mais friorentos suarem às bicas. Mas reconheço que o clima é uma variável importante nessa equação que quero demonstrar.

Refiro-me a um relaxamento e uma contração mais subjetivos, e que nos atingem desde a tenra infância. Trata-se da sensação de total desprendimento que experimentamos durante um feriado prolongado, umas férias bem gastas ou um mero final de semana. Ficamos soltinhos, expandidos, relaxados, seja pelos trajes mínimos (aqui entra a variável estação) ou pela ausência de preocupações. Que delícia esquecer do trabalho, das aulas ou daquele vazamento da pia da cozinha. Se fosse fazer um paralelo, compararia esse estado à uma soneca na rede, tão inútil e tão revigorante como ela pode ser.

Mas como nem tudo são flores, há também o estado oposto da matéria. Seja no congestionamento de volta pra casa ou nos prazos deslizando entre os dedos, uma hora somos obrigados a nos contrair e retomar aos velhos papéis. A metáfora aqui é a dificuldade de colocar um par de calças depois de dias andando por aí de short e chinelo. Os quilinhos a mais não estão no corpo, mas na alma.

Minha teoria é a seguinte: se é para ficar se esticando e encolhendo por aí, que seja com graça. Que o nosso corpo fique sujeito às intempéries e variáveis mas, sempre que possível, nosso espírito continue balançando numa rede bem confortável. Adicione à fórmula um coeficiente de bom humor e uma disposição ao quadrado, e acho que sobreviveremos ao mais rígido dos invernos.

rede

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3 thoughts on “Mola

  1. Olá, acho que agora consigo comentar de novo por aqui! Em primeiro lugar, gostei do visual novo, principalmente do cabeçalho artesanal. Quanto ao texto, ótimo como sempre…e como estou precisando de um retiro desses…

    1. Também gostei muito do visual novo! E também das novas ilustrações. Invista, acho que merece! Quanto ao texto, estou num dia de retração, rs.

  2. Eu sei que é preciso, embora às vezes tão difícil, essa “elasticidade” no bom humor. Vamos esticando, ou melhor, vamos levando…
    Mas, junto-me ao coro acima para dizer que o blog está muito “moderninho”, com uma cara muito simpática e esses desenhos uma graça!

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