Claraboia

Por Vanessa Henriques

                Essa semana até pensei em fazer uma crônica que agradasse os olhos e a alma dos leitores. Pensei em tudo que aliviaria esse calor de verão: sorvetes, neve, pinguins, coca-cola gelada, cerveja gelada, cubos de gelo, freezer, ventilador, ar condicionado, leque, piscina, chuveiro, melancia, abacaxi, picolé, banho de mar, banho de chuva, banho de cheiro.

                Feito isso, vamos ao assunto: o calor. Ele tomou a frente na lista de assuntos pelo simples fato de que ele dominou todas as conversas: desde as de elevador até as mais profundas. Não dava pra deixar de lado.

                Lembrei-me de quando era criança, e de quando fazia todo esse calor e não chovia. Minha mãe abria a porta do quintal e pegava a mangueira para regar as plantas, aliviando a sede das coitadas. Como, em geral, as brincadeiras no quintal depois da janta eram proibidas, essas eram as melhores noites do ano — acompanhadas daquelas de horário de verão, nas quais eu ganhava um pouquinho mais de dia.

                Saía em disparada atrás da bicicleta, de uma bola, ou de qualquer coisa que me ajudasse a aproveitar aquele momento. Enquanto o cheiro da água regando as plantas (um dos melhores cheiros que existe, empatado com cheiro de cebola refogando) se espalhava pelo ar, o excepcional tinha vez.

                Meu pai, por sua vez, se encantava com o cheiro da dama-da-noite plantada por ele em nosso quintal. Nessas noites abafadas parecia que a planta ficava mais animada, e exalava seu cheiro doce por toda parte — para o desespero de minha mãe e minhas irmãs, que o detestam.

                E se o dia estivesse muito quente, não tinha outra: todo mundo caía na piscina — mesmo que tivesse um pouquinho de lodo, que o aquecedor tivesse quebrado e sua superfície estivesse coberta de folhas. Eu e minhas irmãs pulávamos na água a cada dois minutos, dando pulos cada vez mais de longe — na minha cabeça aquela piscina tinha uns três metros de profundidade, e mesmo assim a gente conseguia bater a bunda no fundo quando se empolgava na brincadeira de trampolim.

                Engraçado, acho que todas as minhas boas memórias de infância estão ligadas ao calor. Talvez porque criança tem mais liberdade para brincar, para ficar no quintal até tarde, não precisa ficar encapotada, preocupada com o sereno, com o vento, com a garganta. As mães e avós relaxam, e a criançada aproveita.

                Enquanto nos ocupamos em reclamar do calor, do ventilador, do ar condicionado, do ônibus abafado ou do leque quebrado, alguma criança se diverte por aí. Taí o refresco que me faltava.

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One thought on “Claraboia

  1. Melhor ainda quando a mãe deixava a gente encher as bexigas de água e fazer uma brincadeira, meio violenta mas tudo bem, de jogar bexigas uns nos outros! Nada melhor!!!!!!!

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