A vida é museu

Por Vanessa Henriques

Fiz recentemente uma viagem de fim de semana com meu marido, na qual prometemos não criar compromissos, não ligar para o relógio e, principalmente, não ir atrás de museus.

A viagem foi ótima, e a promessa quase foi cumprida. Não fosse por uma plaquinha de madeira na beira de uma estrada de terra com a inscrição ‘Museu do Carro de Boi’, teríamos conseguido.

Embicamos o carro na propriedade, e paramos ao lado de um cavalo que pastava despreocupado. Nem sinal de gente ou de museu. Seria golpe?

Eis que surge uma senhora devidamente uniformizada e nós ali, meio sem graça, procurando a bilheteria ou a lojinha de presentes. Ela pega a chave e abre um galpão, que antes havia sido um estábulo, e começa a visita. Um outro cavalo, incomodado de ver sua casa virando museu, relinchava numa janela.

Toda a história gira em torno de Quim Costa, seu pai, pioneiro na confecção de carros de boi na região. Mas o galpão, montado por ela —que foi professora—, e seus familiares impressiona pela riqueza de peças e detalhes. Em quatro cômodos, é possível vislumbrar a vida rural do começo do século XX na divisa com São Paulo e Minas, com suas cozinhas de fogão a lenha e pilão, camas com colchões de palha e ferramentas improvisadas.

Mais impressionante é pensar em como tudo aquilo foi organizado com tanta coesão por quem não ostenta título de museólogo ou historiador, mas que acredita que uma vida pode render uma boa exposição.

A história da nossa vida sempre parece sem graça, sem emoções ou aventuras épicas, quando comparadas à dos mais velhos. O que iríamos colocar no nosso museu além dos cacarecos dos anos 80 (meu primeiro gradiente, sandálias da xuxa, cachorro xereta)? Das coreografias cretinas que dançamos na adolescência? Da moda que vai e volta e deixa marcas indeléveis como o tênis de salto?

Mas se somos todos seres históricos, construindo história a todo o tempo (mesmo naquele dia que você queria tirar da memória), algo há de sair dessa nossa existência. Pode ser um museu de obras coloridas, de instalações improváveis — ou um bando de aquarelas soturnas. Um galpão modernista, de concreto, meio frio. Um jardim de esculturas. E até mesmo um antigo estábulo.

Para uma espécie que já nasce com a consciência de que está fadada a perecer, tentar deixar algumas pegadas não parece uma má ideia. E se sobrar uma verba, vale lembrar a descendência que compensa não deixar essas marcas se apagarem.

Vista do museu (Fotos: Vanessa Henriques)
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