Banho de cheiro

Por Vanessa Henriques

                — Ah, esse aí vai sair de catálogo, não vai vir mais não.

                E foi assim, com essa displicência, que a moça me avisou que meu perfume favorito não seria mais fabricado. Tentei especular sobre os motivos desta decisão abrupta, mas não obtive grande sucesso. “Até que vendia bem”, disse ela, compadecida com a minha cara que, naquele momento, deveria ser de total desilusão.

                Saí da loja com o último frasco daquele perfume que eu compraria. Pensei em esvaziar o estoque, mas esse esforço seria inútil pois, daqui a alguns meses ou anos me encontraria na mesma situação desoladora. Meu cheiro saiu de catálogo.

                Passei as semanas seguintes tentando encontrar um substituto: um cheiro doce mas não tão doce, marcante mas não daqueles que enjoam, a um preço acessível e que, de quebra, fosse a minha cara. Dava pra ver que não seria uma tarefa fácil…

                Fiquei imaginando como fazem aquelas pessoas que sempre têm o mesmo cheiro. Conheço algumas que têm o mesmo cheiro há anos! Como elas são capazes de tamanha façanha com uma indústria cosmética cada vez mais volátil?

                Eis o segredo: essas pessoas possuem cheiros próprios, que não se resumem a uma fragrância de perfume. Abrange desde o sabão em pó que usam pra lavar as roupas com os produtos de limpeza da casa e um toque de um hidratante ou perfume suave de sua preferência.

                A busca por um substituto me fez perceber que eu não me arrisco o quanto deveria: por que fico devendo fidelidades a um perfume com tantas opções no mercado? Se eu variasse de produto, não teria passado por esse transtorno: ficaria chateada por uma opção que se foi, mas teria outras que me fariam feliz.

                Talvez essa seja uma característica minha, que não consigo definir se é boa ou ruim: cultivo lealdades em série, desde a marca do perfume até a pista que me mantenho quando dirijo por certas avenidas. Minha irmã não se conforma com minha teimosia em provar algo novo: “você sempre usa o mesmo, como vai saber o que está perdendo?”, ao que eu rebato com “eu estou plenamente satisfeita com esse, pra quê ir atrás de outro?”.

                A resposta para esse dilema é simples: detesto mudanças, e em geral só mudo algum hábito arraigado por motivos de força maior. É teimosia misturada com conformismo, um horror.

                Talvez seja muito mais fácil me manter fiel a um perfume do que refletir sobre minha personalidade. O fato é que ele se foi, mas eu continuo no catálogo. Será que continuarei sempre na mesma página, ao mesmo preço? Ah, o tipo de reflexão que um perfume nos obriga a fazer…

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s