Corra para as colinas

Por Vanessa Henriques

Quanto mais eu corro, mais eu tenho certeza de que correr não é para mim. A conclusão é antiga, mas há uns bons anos persisto no erro e, quando vejo, já tô inscrita em mais uma corrida de rua.

Tenho um fraco por camisetas de corrida, confesso desde já, mas nada me impediria de comprar camisetas dry-fit por bem menos que o valor da inscrição, não? E quando a empresa paga a inscrição? Sedução dupla, e não resisto às investidas no cafezinho: “Você não vai correr? Vamos lá, vai ser divertido!”. Foi assim que o telefone do Marcão da contabilidade foi parar no meu celular.

É fato que há uma indústria da corrida tentando te convencer de que esse exercício é imbatível, de baixo custo, que todos podem tentar. Mas eu vou revelar a dura verdade ao leitor: correr cansa, dói o joelho, faz você suar que nem um porco, falta água, falta ar, falta sentido em continuar nessa existência corredora vazia e no entanto você persiste: pela medalhinha de latão que te espera lá na chegada; pela camiseta, a esta altura já encharcada com seu suor; pela bananinha que talvez role ao cruzar a linha final (nunca é uma certeza); pela aprovação dos colegas do trabalho; pela selfie suada com o Marcão que vai rodar a empresa; pela carona da volta e, principalmente, porque você já passou dos 3km e agora já falta menos da metade.

E contrariando todo o bom senso, seu cérebro acha isso o máximo, e manda um coquetel de serotonina com desmemoriamento que faz com que o Marcão já te inscreva na corrida do ano seguinte sem nem perguntar se você vai.

Se a presença está garantida, não se pode falar o mesmo do desempenho. No início eu até me preparava: ao menos um mês antes da corrida buscava planilhas de treino na internet, alternando caminhada e corrida em um ritmo frenético que me levaria certamente ao pódio, certo? Errado. Todas as vezes nas quais eu me preparei, o desempenho foi aquém do esperado.

Fácil listar os fatores determinantes para o fracasso: tempo seco; chuva; os óculos embaçando com o calor do corpo; tênis desconfortável; roupa errada; não achar o parceiro de revezamento; sol demais, água de menos; e a indefectível “dor no lado” de respirar errado. Muita coisa pode prejudicar um parco rendimento.

Por absurdo, provei então que o melhor era não me preparar. Fui acompanhar meu namorado numa corrida. Chegando lá, me empolguei com a música alta, todo mundo se alongando, e eu ficaria pelo menos uma hora ali esperando? Ah, vou correr! Corri, ótimo desempenho (considerando a falta de treino, claro), aquela serotonina bacana te esperando na linha de chegada.

Passado um ano, resolvi que correria de novo. Não me preparei fisicamente, mas me preparei psicologicamente. Grande erro. Logo nos primeiros metros, dei com a cara no chão: uma topada tão grande numa pedra da calçada tão pequena que me fez voar longe. JULIANA CADÊ MEUS ÓCULOS NINGUÉM SAI!! Achei os óculos, me recompus (na medida do possível), e Murphy estava novamente ao meu lado. Cravei 35 minutos, com queda e tudo.

Agora estou aqui, de camiseta nova, mão enfaixada, joelho doendo, e jurando que não corro de novo no próximo ano. Só passei para alertar vocês para não caírem no conto da corrida. Da minha parte, não garanto…

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